
Tomar
banho todo domingo no chuveirinho dos fundos do cavernoso boteco
praiano Ressaca de Tubarão deve ser morte lenta, arriscar-se a terminar
igual à madame Curie ou ao elenco de Sangue De Bárbaros.
Observação que me ocorre sempre que atravesso a ponte do rio Ceará. Ao
redor, um insistente cheiro semelhante ao de salmoura que impregna a
avenida Duque de Caxias nas imediações do prédio do DNOCS. É, paisagem
insalubre. Saveiros balançam tristes numa massa líquida espumosa e turva
que é quase um resíduo de siderúrgica. O ocasional vôo de gaivotas
míopes. Sujeitos de aspecto rude descamam pargos e tilápias. A opressiva mudez de um cargueiro inválido, a ferrugem e as cracas que não dão a
mínima para seu aventuroso pretérito de contrabando e de capitães com
exóticas gripes meridionais. Entre os nativos das Goiabeiras, endemia de
micose e de bicho-de-pé.
Com a maré da imaginação, porém, a
gente consegue navegar para longe. Do nada, surgem os imponentes
destróieres da arrebatadora última parte de Os Canhões De Navarone.
A esquadra bombardeia sem piedade o feioso pedaço de cinzento mundo
real, que se esboroa como se fosse de papel machê. Isso sim é equipe de
edição. A área é reduzida a um monte de fragmentos de um branco de
terno de almirante. Ótimo. Vou preenchê-los com um cardume de memórias
delirantes. Preparar velas da gávea, içar âncora.
O destino, ao
som de ukulele, é o Batoque, o ano é 2006. Eu sob um alpendre de palha,
mirando o oceano Atlântico e sorvendo água de coco, único vivente em
milhas, herdeiro de duna. A cada 20 minutos, um piloto de motocross
riscava uma trilha em frente à barraca, o capacete de viajante espacial,
o uniforme com dezenas de logotipos de patrocinadores. Siris e náutilos curtiam o ciclo das ondas. Uma brisa peregrina trazia acordes de
reggaeton do Caribe, fedor de marijuana da ilha de Fernando de Noronha
e gritos fantasmagóricos das garças e dos biguás que pereceram em
demorada agonia no colossal vazamento de óleo na Baía de Guanabara em
janeiro de 2000. Para eu não ter uma síncope de tédio, providenciei I)
um monstro marinho que às vezes emergia o pescoço guindástico, II) um
galeão pirata com o tombadilho repleto de um butim de especiarias, III)
testes nucleares em um atol próximo, IV) rumores de especulação
imobiliária desordenada no litoral e V) alemães interessados em roubar
a patente da rapadura. Foi quando apareceu a Sra. Redonda. É sério, ela
andou exagerando. Na caranguejada, nas toneladas de anchova, no
sarrabulho, na jaca, no bolo confeitado de três camadas. Entabulou
diálogo a gordossaura. Simpática a cetácea figura. A
simpatia, republiqueta onde os jaburus costumam exilar-se. Mas até que
funcionava, e dava para esquecer por poucos segundos sua total falta de
noção e seu abuso de poluição visual na amaldiçoada hora em que escolheu
o diminuto traje de verão, feito provavelmente de algum material de
nome engraçado, popeline, tactel, pelanc, ops, helanca. Ela
resolveu encarar o mar. Novo circunstante, brotou da areia, acho, um
moleque fortão com jeito de surfista, talvez o Jonas do caso. Refletindo
barulhentamente, comentei: "Espia aquilo, parece um peixe-boi, uma
baleia encalhada, uma caravela adernando com excesso de peso. É a Ariel
tamanho GG. Vai causar é uma procela com essa batida de pernas.
Qualquer problema, vamos precisar de uma operação de dragagem para
resgatar a hipopótamo." No que ele devolve: "Você diz, uh, ali, minha mãe?"
Antes
que eu desfaleça de vergonha, ou pior, de um mata-leão, uma
tempestade cerebral dissolve bruscamente a constrangedora cena e me afoga num
redemoinho que me arremessa no banco traseiro de um Celta verde. Julho
de 2002. Uma peça do comboio que regressava de uma confraternização no
Iguape. 2 pranchas no bagageiro do teto. Céu alaranjado de 5 da tarde.
Pelas laterais dos caminhos, perto ou distantes, vimos sítios, bangalôs,
carnaúbas, estrela cadente da Texaco, fábrica de suco de fruta cítrica,
o ponto das tapioqueiras, silos graneleiros, hortas, moendas,
madeireiras, olarias, maquinário das docas. De volta à capital, os
contornos de uma cordilheira de edifícios já insinuantes, as janelas
indiscretas, as luzes rubras das antenas de telecomunicação. Os
tripulantes do veículo digeríamos recordações de bons momentos, barcos
contra a corrente, rumo ao passado. O CD player afiado na seleção musical, Spy vs Spy tocando Clarity Of Mind. Na dianteira, o Thiago - ao volante - e o Lu. A meu
lado, Debbie, estudante de Biologia e morena mais linda da turma. Dona
da risada explosiva que me embargava o estômago, pensem em duas
lagostas, as danadas brigando no meu bucho. Em nosso recém-concluído
episódio de férias, fotografaram-na a jogar vôlei e pingue-pongue, a
fingir-se de vesga, a mergulhar na imensa colcha azul-turquesa e a
esquivar-se de lambidas da cachorrinha malhada Sigourney, mascote local
cujas fileiras de tetas emprestavam-lhe a aparência da estátua da loba
amamentando Rômulo e Remo. Dançou (biquininho letal, cabelo solto), com
requebros de sacerdotisa balinesa, Superstylin', do Groove
Armada, segurando uma lata de refrigerante com a canhota - o indicador e o
polegar da direita em L espetando ritmicamente o alto - e usando grandes
óculos escuros que lhe deixavam com ares de mulher-inseto de gibi dos
50s. Eu era caidão por ela. Garota nos trinques, de conversa
magnetizante. Descemos na calçada do North Shopping, que fervilhava numa
agitada lotação de gafieira. Debbie saboreava um copinho de sorvete. Em
meio ao zunzum daquele templo de compre-e-parcele, eu disfarçava minha
ansiedade contando piadas corrosivas sobre carecas safenados que
xavecavam vendedoras. Declara logo para a diva as
intenções, tanga frouxa. Quem quer passar além do Bojador tem que
passar além da dor. Pigarreei e lancei a abordagem, meu anzol. Eu
encerraria a história agora. Só que o intrometido de um demoniozinho
interno, que preza pela veracidade - também senta na primeira cadeira da
fila, adora o gestinho de abre aspas e gosta de apagar a lousa para o
professor -, puxa-me uma orelha e sopra: colidi com um arrecife de
evasivas em que se destacavam cortantes um Não e um Apenas amigos. Náufrago.