domingo, 17 de maio de 2015

Armênios

"Who, after all, speaks today of the annihilation of the Armenians?" (Adolf Hitler, allegedly included in a speech at Obersalzberg, 22 August 1939)


AVENTURAS NA HISTÓRIA
15 de abril de 2013

Genocídio armênio

(Yuri Vasconcelos)

Era 24 de abril de 1915. Na manhã daquele Sábado de Aleluia, em meio às comemorações da Páscoa cristã, cerca de 600 intelectuais, políticos e religiosos da comunidade armênia que viviam no então Império Turco-Otomano, atual Turquia, foram presos sob a acusação de conspiração e traição. Com a Primeira Guerra Mundial incendiando o planeta, os turcos, aliados dos alemães, lutavam contra a Tríplice Entente, formada pela Inglaterra, França e Rússia, e acusaram os armênios de apoiar as tropas inimigas. Enviados para a prisão de Mehder-Hané, na capital Constantinopla, hoje Istambul, os líderes armênios acabaram sumariamente executados. Muitos foram fuzilados e outros enforcados em praça pública. A ação, coordenada pela cúpula do partido governista Ittihad, conhecido como partido dos Jovens Turcos, deu início a uma das piores atrocidades da história da humanidade: o genocídio armênio, um sangrento massacre em que morreram cerca de 1,5 milhão de pessoas. Estima-se que, naquela época, o Império Otomano abrigava por volta de 2 milhões de armênios.

Passados mais de 90 anos da tragédia, muitos historiadores acreditam que o genocídio fez parte de um processo de limpeza étnica, com a intenção de eliminar o povo armênio. Ou seja, uma versão turca do Holocausto, que matou, segundo estimativas, entre 2 e 5 milhões de judeus. Os assassinatos foram meticulosamente planejados por um triunvirato que estava no comando do país, formado por Mehmet Talaat, ministro do Interior e futuro primeiro-ministro turco, Ismail Enver, ministro da Guerra, e Ahmed Jemal, ministro da Marinha. Uma série de telegramas, tornados públicos depois da matança, revelavam detalhes do plano de extermínio. A estratégia era diversificada, mas a maior parte das vítimas morreu durante longas e penosas jornadas de deportação que tinham como destino o deserto de Der-El-Zor, localizado no território sírio, naquela época parte do Império Otomano. "Os turcos alegavam que os armênios precisavam deixar suas casas por causa do avanço das tropas da Entente e organizavam caravanas de morte, formadas por mulheres, crianças e idosos. Muitos levavam a chave de casa, achando que iriam voltar", diz o professor de geopolítica James Onnig Tamdjian, de 39 anos, neto de armênios que sobreviveram ao genocídio. "No meio do caminho, os armênios sofriam abusos. As mulheres eram violentadas, seus filhos raptados e a maioria morria de fome, sede, doença ou frio. Os poucos que chegavam aos campos de concentração tinham poucas chances de sobreviver."

Já os homens morriam assassinados no front de batalha da Primeira Guerra. Se antes eles não podiam nem integrar as forças armadas turcas, agora haviam sido convocados para se alistar no Exército. Só que não podiam pegar em armas. "Enquanto cavavam trincheiras, eram executados pelos próprios soldados otomanos. A convocação para o serviço militar foi um pretexto para deixar as aldeias desprotegidas", afirma Tamdjian. Há relatos também de vilas e povoados destruídos, saqueados e incendiados pelas forças turcas e por milícias apoiadas pelo governo central. E as atrocidades não paravam por aí. "Muitos armênios foram queimados vivos nas aldeias. Outras vezes, a tortura consistia em enterrar a vítima até o pescoço para, logo em seguida, cobrir o rosto com cal virgem ou sal. As jovens armênias eram vendidas como escravas e as crianças eram encaixotadas vivas e atiradas no Mar Negro", relata Nubar Kerimian, no livro Massacres de Armênios. "Os padres também eram queimados amarrados em cruzes, como Jesus, e os fetos, arrancados dos ventres das mães, jogados para o ar e aparados na espada."

O genocídio atingiu mais fortemente as comunidades campesinas e de pequenas localidades da Anatólia, a região montanhosa que compreende a porção asiática da Turquia moderna. Naquela época, a Armênia Oriental, atual território da República da Armênia, era protegida pelos russos, inimigos declarados dos turcos. Nas grandes cidades do Oeste, como Constantinopla, a presença de estrangeiros inibia os massacres, já que o governo otomano tentava esconder da comunidade internacional as atrocidades perpetradas dentro de suas fronteiras. Mesmo assim, as notícias sobre os massacres acabaram vazando e chegaram ao conhecimento de governantes de outros países, que condenaram a ação, mas não tomaram medidas para evitar a matança.

O período mais duro do genocídio ocorreu entre 1915 e 1918. Quando a Primeira Guerra Mundial chegou ao fim, os turcos, derrotados, foram forçados a assinar o Tratado de Sèvres, que tornou independente Síria, Egito, Líbano, Palestina e, também, Armênia. As escaramuças entre turcos e o povo armênio, no entanto, haviam começado bem antes daquele sábado da Semana Santa. Entre 1894 e 1896, quando o Império Otomano encontrava-se em franca desintegração, estima-se que entre 100 mil e 300 mil armênios tenham sido executados. "Em muitas cidades, propriedades armênias eram destruídas. Os assassinatos aconteciam durante o dia, presenciados pela população", diz o historiador Edwin Bliss, autor do livro Turkey and the Armenian Atrocities (A Turquia e as Atrocidades Armênias, inédito no Brasil).

A justificativa para esses massacres, ordenados pelo sultão Abdul-Hamid II, foi uma suposta colaboração armênia com os russos, considerados inimigos do Império. Entre 1877 e 1878, a Rússia entrou em guerra contra os turcos e saiu vitoriosa, conquistando largas porções da Armênia Ocidental que estavam sob domínio otomano. Além disso, as autoridades turcas queriam frear o ímpeto separatista dos armênios, que reivindicavam a independência. No final dos anos 1880, o movimento nacionalista ganhou forças e três partidos revolucionários (Armenakan, Hentchakuian e Federação Revolucionária Armênia) foram formados, fazendo com que Abdul-Hamid II, em represália, elevasse os impostos sobre a comunidade armênia. "O que fez com que os armênios apoiassem os russos foram as péssimas condições em que viviam no Império, onde eram alvos de agressões e tinham direitos limitados. Esse cenário fez com que eles se armassem e formassem milícias para defender suas vilas e aldeias", afirma James Tamdjian.

A terceira e última fase das atrocidades começou em 1920 e estendeu-se por três anos. Depois de desfrutar dois anos de independência (entre 1918 e 1920), a República da Armênia havia sido anexada à nascente União Soviética. Desta vez, a violência foi dirigida a armênios que haviam retornado às suas casas na Anatólia Oriental após o final da Primeira Guerra Mundial. As execuções, torturas, expulsões e maus-tratos foram arquitetados e promovidos pelo governo nacionalista de Mustafá Kemal Atatürk, considerado o pai da Turquia moderna. Em 1923, a população armênia na Turquia estava restrita à comunidade existente em Constantinopla.

Embora os armênios tenham sido trucidados pelos turcos, é importante dizer que durante muito tempo esses dois povos viveram em harmonia. A porção de terra conhecida como Armênia Histórica, que hoje engloba a República da Armênia e parte da Anatólia, foi conquistada pelo Império Otomano por volta do ano 1375. Durante 600 anos, os turco-otomanos formaram um dos mais poderosos impérios do planeta, que, no seu auge, se estendia pelo norte da África (Argélia, Marrocos, Egito), Oriente Médio (Líbano, Arábia Saudita, Jordânia, Síria, Palestina, Pérsia), Rússia e Europa (Grécia, Hungria, Bulgária, Albânia e a região dos Bálcãs, entre outras). Para manter a unidade e o bom funcionamento do império, parecido com uma colcha de retalhos, tamanho era o número de povos e etnias que abrigava, os governantes adotaram um tolerante sistema chamado de millet, termo turco que quer dizer "comunidade religiosa".

"Cada comunidade religiosa, como a formada pelos cristãos e pelos judeus, gozava de autonomia e funcionava como uma nação não-territorial, participando das trocas econômicas com outras comunidades. Seu líder espiritual era responsável perante o sultão pelo bom comportamento dos seus", diz o historiador holandês Peter Demant, autor de O Mundo Muçulmano. Os armênios, que desde o século 3 adotavam a religião cristã, formavam um millet. Eles eram considerados bons comerciantes e alguns integravam a elite do Império.

Então, que motivos levaram o governo otomano a tanta violência contra uma minoria que vivia em harmonia dentro do Império? A primeira justificativa foram as aspirações pan-turquistas (ou pan-turanistas), o sonho otomano de reconstruir uma poderosa nação integrando os povos de origem turca que viviam espalhados na Ásia Central, especialmente em regiões do Turcomenistão e Azerbaidjão. Os armênios, por sua posição geográfica, formavam um enclave bem no meio do caminho. Outra motivação para o genocídio, negada pela Turquia, foi a causa da independência armênia. Há de se ressaltar que, nesta época, o império já enfrentava a desintegração. Os gregos, por exemplo, já haviam conquistado sua autonomia em 1812. "Os turcos temiam os armênios por sua capacidade intelectual e comercial. Cerca de 60% da atividade econômica do Império estava nas mãos dessa comunidade", diz o historiador Hagop Kechichian, doutor em história armênia pela Universidade de São Paulo (USP).

Além de causar a morte de milhões de pessoas e quase exterminar um povo, o genocídio também provocou uma grande diáspora. Hoje, além da população de 3,5 milhões de pessoas da República da Armênia, estima-se que cerca de 2,6 milhões de armênios e descendentes vivam na Federação Russa e na República da Geórgia e pouco mais de 2,5 milhões estejam espalhados pelo resto do mundo, principalmente nos Estados Unidos, Canadá, França, Irã, Argentina, Líbano, Síria e Austrália. No Brasil, a comunidade armênia tem em torno de 60 a 70 mil pessoas. Não importa onde estejam, a luta dos armênios hoje é uma só: o reconhecimento do genocídio pelo mundo.

"Minha família viveu na Armênia Ocidental e fez parte das caravanas de deportados. Meu bisavô materno, antes de escapar para a Síria, presenciou o fuzilamento de três irmãos e do pai. Sua mãe cometeu suicídio. Eles começaram a chegar na América do Sul em 1923. Nós perdemos tudo e tivemos de recomeçar do zero." (Garbis Bogiatzian, 23 anos, nascido em São Paulo)

"Minha irmã mais velha morreu de frio durante a fuga da minha família para o Líbano. Lembro-me de meus pais contando histórias terríveis, de pessoas sendo degoladas e de mulheres grávidas apunhaladas por policiais turcos que arrancavam seus filhos do ventre. Me recordo de um episódio em que, tentando escapar, alguns conterrâneos entraram numa igreja e foram barbaramente incendiados." (Arusiak Nersissian, 78 anos, nascida em Beirute, Líbano)

"Durante o genocídio, meu pai foi separado dos meus avós e enviado para um orfanato. Lá, sofreu abusos. Quando ficou mais velho, fugiu para a Romênia. Depois, para o Líbano. No Brasil, chegou no final dos anos 20. Ele não falava a língua e não conhecia ninguém. Integro o Conselho Nacional Armênio, entidade internacional que luta pelo reconhecimento das atrocidades contra meu povo." (Simão Kerimian, 59 anos, nascido em Bela Vista - MS)

VERSÃO TURCA

No mesmo momento em que se esforça para ingressar na União Europeia, a Turquia sofre pressão para reconhecer as atrocidades cometidas contra o povo armênio. Passados 90 anos da tragédia, o genocídio só é reconhecido pela França, Austrália, Argentina, Suécia, Itália, Chipre, Grécia e Uruguai e por organizações internacionais como o Parlamento Europeu, a Comissão de Direitos Humanos da ONU e o Conselho Ecumênico das Igrejas. Os armênios, no entanto, não contam com o apoio oficial dos Estados Unidos, que têm na Turquia o seu mais forte aliado no mundo muçulmano. O país desempenha um relevante papel no xadrez político global e abriga bases da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN). O governo turco nega que tenha ocorrido um genocídio, apesar de reconhecer que "os armênios sofreram, sim, uma terrível mortalidade", e afirma que agiu para garantir a soberania nacional. O país diz ainda que o número de mortos alegados pelos historiadores é exagerado. "Estudos demográficos provam que antes da Primeira Guerra Mundial menos de 1,5 milhão de armênios viviam em todo Império Otomano. Portanto, alegações de que mais do que 1,5 milhão de armênios da Anatólia Oriental morreram só podem ser falsas", afirma o Ministério das Relações Exteriores da Turquia. "Se por um lado, existe um imenso e profundo volume de conhecimento sobre o holocausto, por outro, grande parte da história do crepúsculo do Império Otomano ainda não foi contada, faltando detalhamento para que conclusões possam ser tiradas sobre o que realmente aconteceu."



Fonte:
http://guiadoestudante.abril.com.br/aventuras-historia/genocidio-armenio-434250.shtml

Mais:
http://www.youtube.com/watch?v=uTnCaW-Uo_s
http://en.wikipedia.org/wiki/Ambassador_Morgenthau's_Story
http://archive.org/stream/memoriesofturkis00ahmeuoft#page/240/mode/2up

domingo, 10 de maio de 2015

Lusitania

PRAVDA
16 de dezembro de 2008

O afundamento do Lusitania

(Sergei Balmasov)

Mergulhadores fizeram uma descoberta durante o exame do transatlântico Lusitania que afundou em 1915. Eles confirmaram a versão de acordo com a qual a Grã-Bretanha e os Estados Unidos usaram navios de passageiros civis para contrabandear armas, colocando em risco a vida de civis.

Os escafandristas encontraram suprimentos de guerra a bordo do transatlântico Lusitania, que afundou em 7 de maio de 1915 ao largo da costa da Irlanda. A maioria dos passageiros - 1.198 pessoas, inclusive 139 cidadãos americanos - perdeu a vida na tragédia. O evento, que a mídia descreveu como o maior crime militar da história, despertou numerosos protestos no mundo.

No limiar da Primeira Guerra Mundial, a Europa descobriu-se no meio de uma corrida armamentista. A Grã-Bretanha tentou desinformar o inimigo a respeito de seu poderio militar. O país estava construindo navios de guerra tanto convencionais quando de reserva, disfarçados de navios civis. Esses últimos incluíam grandes transatlânticos, que a Grã-Bretanha planejava usar dentro da estrutura de sua marinha em caso de necessidade. O Lusitania, com 31.000 toneladas, era um dos maiores navios da época.

Na verdade, plataformas para canhões e guindastes para munição foram montados no Lusitania e em outros navios logo que a guerra eclodiu. Entretanto, a Grã-Bretanha foi forçada a desistir da ideia original para seu uso devido ao temor da 'mais nova arma alemã', os submarinos, para os quais um transatlântico constituía alvo muito bom. De início mobilizado para propósitos militares, o Lusitania voltou à condição de simples, embora enorme, transatlântico de passageiros.

A indústria britânica percebeu que não estava preparada para a guerra mundial e ser incapaz de atender às exigências da área de defesa do país. Os transatlânticos foram finalmente usados como navios de contrabando. O Lusitania partiu, em sua letal viagem, de New York rumo a Liverpool em 1º de maio de 1915. Uma semana depois, um submarino alemão torpedeou o navio.

A mídia alemã imediatamente escreveu que havia substâncias explosivas e equipamento militar a bordo do navio. Grã-Bretanha e Estados Unidos rejeitaram a afirmação.

Escusado é dizer que a verdade a respeito do transatlântico teria permanecido um mistério, pois era extremamente difícil submergir a uma profundidade superior a 100 metros, onde repousava o Lusitania. As coisas hoje mudaram. Revelou-se que o navio estava carregando muitas caixas de balas Remington.

Um estreito círculo de historiadores profissionais não achou a descoberta surpreendente. A informação a respeito da carga a bordo do navio naufragado apareceu originalmente como resultado da investigação conduzida pelo jornalista britânico Colin Simpson. O jornalista concluiu que o navio estava transportando explosivos fabricados nos Estados Unidos. O britânico descobriu, particularmente, que havia 3.800 caixas de "queijo" em meio à carga a bordo do transatlântico. As caixas estavam registradas em nome do cidadão americano A. Frazer.

Em segundo lugar, Londres oficialmente reconheceu que havia um pequeno estoque de balas a bordo do navio naufragado. Entretanto, esse reconhecimento não mudou em nada o estatuto civil do navio.

Todos os fatos acima mencionados comprovaram que havia carga militar a bordo do transatlântico.

Jornais dos Estados Unidos escreveram pouco antes de o Lusitania partir em sua última viagem que era perigoso para cidadãos dos Estados Unidos permanecerem a bordo de navios de passageiros britânicos. Essa advertência foi originalmente feita pela Embaixada Alemã nos Estados Unidos. A embaixada fora informada de que o Lusitania transportaria grande carga militar.

Os passageiros do transatlântico foram informados de que nenhum navio alemão poderia alcançar aquele transatlântico de alta velocidade, e de que navios de guerra britânicos protegeriam o Lusitania de possível ataque de submarinos. Ninguém escoltou o navio, e o Lusitania afundou.

Por que isso aconteceu? A resposta é simples. De um lado, a Grã-Bretanha estava importando cargas militares usando como disfarce cidadãos de países neutros. Era um jogo vantajoso para a Grã-Bretanha, mesmo que a Alemanha destruísse um de tais navios. A Grã-Bretanha queria que os Estados Unidos se envolvessem na guerra.

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O enorme navio afundou em apenas 18 minutos devido à pesada carga. O capitão do submarino alemão U-20, Schwieger, disse que ordenara o disparo de apenas um torpedo, embora o ataque resultasse em duas grandes explosões, que esmigalharam o compartimento de carga mais baixo e o convés do navio. Este afundou rapidamente quando a munição explodiu em seus compartimentos de carga.

Mesmo se dois torpedos tivessem atingido um navio imenso como o Lusitania, este teria permanecido na superfície da água por pelo menos duas horas. Por exemplo, submarinos alemães despejaram seis torpedos ao atacar o barco a vapor Justicia em 1918. O barco torpedeado permaneceu à tona por mais um dia, enquanto o enorme Lusitania afundou em apenas questão de minutos.

A Embaixada da Áustria-Hungria nos Estados Unidos reconheceu, em junho de 1915, que havia informado a Alemanha a respeito da carga secreta a bordo do Lusitania. Os diplomatas austro-húngaros temeram que o fato pudesse levar a uma guerra entre Viena e Washington e tentaram encontrar desculpas ingênuas.

É digno de nota que o então Secretário de Estado William Bryan condenou a política do presidente, que estava ciente do transporte de suprimentos de guerra dos Estados Unidos a bordo de navios britânicos, o que era séria violação da neutralidade dos Estados Unidos.


Fonte:
http://port.pravda.ru/sociedade/incidentes/16-12-2008/25594-mergulhadores-1

Mais:
http://www.youtube.com/watch?v=AYKdXABWaFg
Lusitania & Aleister Crowley

domingo, 3 de maio de 2015

Gallipoli


AVENTURAS NA HISTÓRIA
1 de setembro de 2004

Gallipoli, o fiasco

Estabelecer uma frente de combate na península de Gallipoli, na costa turca, parecia o plano perfeito. Mas a operação se tornou um dos maiores fracassos dos aliados. E um dos maiores banhos de sangue de toda a guerra.

(Isabelle Somma)

Era 23 de abril de 1915, uma chuvosa madrugada de primavera na costa oriental do Mar Mediterrâneo. O mau tempo que insistia em encobrir a região mais lembrava o das ilhas britânicas, de onde vinha parte dos soldados instalados em navios mercantes e de guerra. Outros milhares de homens oriundos da França e de suas colônias, além da Austrália e Nova Zelândia, também aguardavam melhores ventos para desembarcar na península de Gallipoli, litoral da Turquia. A operação era uma das esperanças dos aliados de reverter os resultados negativos nas frentes de luta europeias. Mas a campanha, que começou dois dias depois daquela madrugada e durou nove meses, foi uma das maiores derrotas da Tríplice Entente, formada por Grã-Bretanha, França e Rússia. E um dos maiores banhos de sangue de toda a guerra. Morreram ali 60 mil aliados e 90 mil turcos. Segundo documentos do governo inglês, o número de baixas foi de quase meio milhão de homens, entre mortos, feridos e desaparecidos.

A operação saiu da cabeça do alto comandante da marinha britânica, Winston Churchill. A estratégia tinha objetivos militares. Mas também psicológicos. Ingleses e franceses estavam desapontados com a estagnação da guerra no Front Ocidental. Há meses, a luta nas trincheiras rendia poucos frutos. Para Churchill, a ideia de abrir uma nova frente de combate acenava com possibilidades de sucesso para a Entente. E maior ânimo para as tropas aliadas. A tal operação em Gallipoli pareceu ainda melhor depois que a Turquia entrou na guerra para ajudar os alemães. Os aliados russos, por outro lado, passavam sérias dificuldades no Front Oriental. O czar Nicolau II pediu auxílio em forma de tropas e munição. Portanto, um ataque bem-sucedido contra a capital turca, Constantinopla, mataria dois coelhos com uma só cajadada: representaria uma derrota para a Tríplice Aliança e abriria um flanco de auxílio aos russos. Era o plano - quase - perfeito.

PLANO X AÇÃO

Para colocar a ideia em ação, contudo, era necessário reunir tropas e navios. O exército britânico dispunha de apenas uma divisão de infantaria - ou seja, 12 mil homens - para a empreitada. A maior parte de seus soldados lutava nas trincheiras europeias. Os franceses, com seu território ameaçado pelos alemães, também não tinham muito a oferecer. Além disso, a eficiente armada de guerra inglesa estava bastante ocupada no Mar do Norte, lutando contra os navios alemães. Como, então, reverter o plano em ação? A solução foi utilizar os poucos homens que restavam - e os navios já aposentados. Com esse arranjo tosco, a ideia começou a virar prática em fevereiro de 1915. O objetivo era usar a frota naval para atacar as fortalezas turcas que defendiam o Estreito de Dardanelos. Com apenas 7 quilômetros de largura, o estreito liga o Mar Mediterrâneo ao Mar de Marmara, acesso para Constantinopla e para o Mar Negro, que costeia a Rússia. O bombardeio, no entanto, não obteve êxito. "O ataque naval dos aliados fracassou devido à falta de bons equipamentos de busca de minas e à eficiente artilharia turca, estacionada em ambos os lados do estreito", afirma Timothy Travers, autor de Gallipoli e professor de história da Universidade de Calgary, no Canadá. De acordo com ele, as minas marítimas provocaram grandes estragos nos navios britânicos e franceses.

Quando as nuvens carregadas se foram, os soldados remaram até a costa. Só que, devido a uma inexplicável mudança de rota, a maior parte dos integrantes das Anzac desembarcou a 2 quilômetros do ponto planejado. No local, que ganharia o nome de Anzac Cove (Abrigo Anzac), os homens encontraram um terreno bastante difícil de atravessar, com muitos barrancos e uma vegetação cortante. Mesmo assim eles conseguiram se estabelecer na região. A outra base foi instalada em Helles, na ponta da península, exatamente como planejado. A partir daí, começaram os confrontos terrestres. A luta era penosa, principalmente para os soldados aliados. Enquanto eles tinham de avançar em condições duras, subir e descer barrancos, cavar trincheiras, carregar armas, os turcos contavam com fortalezas e linhas de abastecimento terrestre contínuo. Os aliados também sofreram com o calor abrasador, com os insetos atraídos por corpos em decomposição, com as condições inadequadas de higiene e de alimentação, além da potente artilharia inimiga.

SANGUE, SUOR E LÁGRIMAS

Nos meses seguintes, os aliados tentaram por três vezes atacar a região de Krithia. Todas as incursões foram reprimidas pelo general Von Liman. O fracasso das operações provocou a demissão de um dos almirantes do lado britânico - e também de Churchill, que futuramente ocuparia o cargo de primeiro-ministro da Grã-Bretanha. Em junho, o comando aliado se reuniu para elaborar uma nova estratégia para reverter a situação. Uma leva de homens foi enviada para a costa turca. Ao mesmo tempo, as tropas otomanas, comandadas por Mustafa Kemal, que viria a se tornar o fundador do Estado moderno turco, ganharam reforços. A trupe aliada chegou à baía de Suvla em agosto de 1915. A intenção era que eles se unissem às tropas Anzac e avançassem juntos. A Entente precisava da vitória. Os alemães haviam acabado de massacrar os russos no Front Oriental. Mas, de novo, nada deu certo. Segundo Travers, vários problemas se acumulavam: "Era o começo da guerra e as tropas aliadas esbanjavam inexperiência, especialmente em ofensivas. Tinham mais facilidade de defender uma posição do que atacar, como precisavam fazer em Gallipoli. Também havia sérios problemas de comando no lado aliado. Hamilton usou táticas erradas e obsoletas. Em contraste, os turcos eram duros defensores - e tinham bons comandantes."

Enquanto isso, a Sérvia, país aliado à Entente, era invadida pelos alemães. Uma nova frente se fazia necessária para defendê-la - e muitos homens teriam de ser enviados para lá. O general Ian Hamilton passou a disputar reforços com a novíssima frente de luta. E ninguém queria dispor de mais soldados para as batalhas no território turco, onde a mortalidade atingia números inacreditáveis e os resultados eram pífios. Sem outro caminho, o comando aliado decidiu-se por uma retirada de Gallipoli, em outubro de 1915. Hamilton protestou, alegando que haveria muitas mortes. Ele foi trocado por um novo comandante, que recomendou uma saída à francesa. Em dezembro, o governo britânico deu a ordem de capitulação. Somando, ainda restavam 140 mil homens em Anzac Cove, Suvla e Helles. O último deles embarcou de volta em 9 de janeiro de 1916. Ironicamente, foi a operação de maior êxito dos aliados em Gallipoli. Depois de tantos fracassos, houve apenas três baixas na campanha. "Por um lado, o plano era bom. Por outro, os turcos sabiam da retirada e resolveram não interferir porque não queriam perder mais homens em um ataque desnecessário", afirma Travers.


Fonte:
http://guiadoestudante.abril.com.br/aventuras-historia/gallipoli-fiasco-433945.shtml

Mais:
http://www.youtube.com/playlist?list=PLrWPsj6fVbeUIDLpGaVBrxZXkcOlJIwcR
http://anzacportal.dva.gov.au

domingo, 26 de abril de 2015

Ypres

22 de abril de 1915. Neste dia ocorre a única grande ofensiva alemã nas trincheiras da Primeira Guerra Mundial. A mais importante nota relativa a esta batalha tem a ver com o procedimento alemão.

A ofensiva alemã começou normalmente, com recurso a uma cerrada barragem de artilharia pesada que tinha o objetivo de desorganizar as defesas inimigas, para permitir um mais fácil avanço da infantaria a pé. Este foi, aliás, o procedimento normal durante grande parte da guerra.

No entanto, depois da fortíssima barragem de artilharia, a infantaria não avançou.

Em vez do avanço da infantaria, ocorreu um ataque maciço dos alemães numa frente com a largura de cerca de 6 quilômetros, em que pela primeira vez na história foram utilizadas armas químicas, tendo os alemães disparado cartuchos de gás de cloro sobre as posições aliadas.

Os principais visados foram duas divisões francesas constituídas essencialmente por tropas coloniais argelinas, que perante o ataque foram acometidas de total pânico. A frente naquele setor ficou completamente desorganizada com as tropas francesas e argelinas em debandada total. Foram também atacadas forças indianas da Commonwealth.

Os alemães, porém, analisando a situação e tão aturdidos com o resultado da utilização da arma quanto as tropas francesas, não aproveitaram a vantagem que tinham ganho e praticamente não avançaram, com medo de que as suas tropas fossem afetadas pela sua própria arma.

A batalha prosseguiu e durante o dia 24 foi novamente efetuado um ataque utilizando o mesmo tipo de gás, sobre tropas do Canadá.

À medida que os dias iam correndo, os alemães passaram a conseguir obter vantagens táticas e fizeram retroceder as forças Aliadas, tendo ganho terreno até que o recuo dos Aliados parou junto à cidade de Ypres. A ofensiva foi finalmente detida em 25 de Maio de 1915, mais de um mês depois de a ofensiva ter começado.

A importância da batalha de Ypres é, por isso, muito grande, porque correspondeu à primeira grande utilização operacional de armas químicas durante um conflito.

Foram desenvolvidas apressadamente formas para evitar os gases, especialmente na forma de mascaras antigás, que embora extremamente desconfortáveis eram consideradas adequadas para a situação.

Mais tarde, também os Aliados desenvolveram as suas próprias armas químicas, que passaram a utilizar contra os alemães até o fim da guerra.

Entre as vítimas alemãs das armas químicas dos aliados encontrar-se-ia o cabo de origem austríaca Adolf Hitler, que durante a Segunda Guerra Mundial se recusou a permitir a utilização de armas químicas, por ter tido conhecimento direto das consequências da sua utilização.

As armas químicas, entre as quais se encontra o gás mostarda, introduzido pelos alemães em 1917, provocaram durante a guerra um total de 500.000 vitimas, entre as quais 30.000 mortos.


Fonte:
http://www.areamilitar.net/HISTbcr.aspx?N=35

Mais:
http://www.youtube.com/watch?v=iQ0mox7w5Go

domingo, 19 de abril de 2015

Les poilus reviennent à la charge

PARIS MATCH
11 décembre 2013

Les poilus reviennent à la charge

A l'approche du centenaire de la guerre 14-18, l'édition rouvre ses pages sur un conflit qui a meurtri la France et marqué les mémoires.

(Valérie Trierweiler)

LETTRES DES TRANCHÉS

C'est sans doute le livre le plus spectaculaire parmi les ouvrages consacrés au centenaire de la Grande Guerre. Réalisé sous la houlette de l'incontestable historien Jean-Noël Jeanneney, il rassemble 800 photographies inédites. C'est dans le fonds du journal "Excelsior" que les éditions des Arènes ont puisé. Il s'agit de reportages qui avaient été publiés alors et rassemblés ici pour la première fois; les vrais débuts du photojournalisme. Le livre est organisé de façon chronologique. Il s'ouvre sur l'été 1914, avec la présentation des unes de la revue. Les événements s'enchaînent: assassinat de l'archiduc d'Autriche-Hongrie, puis celui de Jaurès, mobilisation générale le 1er août. Et l'engrenage fatal. Magnifiques clichés à partir des plaques de verre des soldats attendant sur le quai de la gare de l'Est le départ au front. La qualité des images est exceptionnelle. Les tirages rendent la profondeur de champ palpable. Autre chapitre particulièrement intéressant, celui sur les tirailleurs algériens et sénégalais ou encore les soldats indiens, tous touchés dans l'hécatombe. Fascinantes aussi, ces images de tranchées où vivent les soldats. Le livre ne fait l'impasse ni sur la population française et la façon dont elle surmonte l'épreuve de guerre, ni sur la destruction des habitations ou des édifices publics.

Pas d'impasse non plus sur le sort des blessés ou des... chevaux! Un reportage d'avril 1915 attire l'attention: il s'agit d'un camp de prisonniers allemands qui "deviennent un enjeu médiatique". Un grand nombre de pages est réservé au sort des blessés et mutilés. Observons encore le temps nécessaire, page 153, ce cliché d'un soldat amputé des deux pieds et porté par un tirailleur lors d'une fête organisée par les "artistes de Paris", ou celle du parterre de blessés, le même jour, au palais du Trocadéro. A chaque page, le lecteur découvrira des fragments d'Histoire. Telle l'arrivée du casque Adrian fabriqué à plus de trois millions d'exemplaires par les femmes restées à l'usine.

Le livre consacre un chapitre aux "combattantes de l'arrière", l'autre front, et un autre sur leurs nouveaux métiers. Les années passent, un hiver très rude s'installe en 1917. Les batailles s'accumulent jusqu'aux belles heures de la victoire. L'ouvrage s'étend jusqu'en 1919, au départ des prisonniers allemands, et, sur une note plus frivole au retour de la mode féminine. L'auteur a fait le choix d'un ouvrage destiné aux familles. Aucune image n'est insoutenable, toutes peuvent être regardées par les enfants. Ce livre est un véritable trésor pour la mémoire collective, et devrait trouver sa place dans toutes les bibliothèques.

LA PHOTO SUR TOUS LES FRONTS

Dupré n'a pas 20 ans lorsqu'il entame ce journal. Et quel journal! Il y a d'abord ses lettres adressées à ses parents, de sa petite écriture ronde et régulière. Et puis ses croquis, qui illustrent les scènes de guerre. Ce n'est pas la première fois que des lettres ou des journaux intimes de guerre sont publiés; les poilus avaient la plume alerte. C'était pour eux l'un des rares moyens de supporter les atrocités de cette guerre. Et ces écrits sont un précieux apport pour les historiens. Dupré, engagé dans l'artillerie, donne force détails. Sur la page de gauche, le fac-similé des lettres originales sur celle de droite, la retranscription en lettres d'imprimerie. On y trouve un mélange de gravité et d'innocence.

Ansi le 10 juillet 1917: "Les boches ont l'air de vouloir recommencer à nous embêter. Le temps est superbe et c'est triste de voir les obus éclater, soulevant la terre au milieu de la verdure fraîche et ensoleillée." Certains jours, le soldat Dupré s'étend sur ses feuilles blanches. Parfois il note: "Je suis seul" ou bien "Il fait extrêmement froid". Le jeune homme donne des précisions sur les opérations ou les déplacements effectués. Mais c'est l'obsession du "boche" qui revient sans cesse. Celle qui masque la peur. La peur de perdre la vie quand tant de ses camarades ont disparu. Dupré a survécu. Comme sa mémoire, grâce à ses confidences.


Fonte:
http://www.parismatch.com/Culture/Livres/Les-poilus-reviennent-a-la-charge-540138

Mais:
http://www.dailymotion.com/playlist/x1s10i_ufo67

domingo, 12 de abril de 2015

História completa

Trechos da introdução de A Primeira Guerra Mundial: História Completa (2013), de Lawrence Sondhaus.


"Graças a Deus, é a Grande Guerra!" O general Viktor Dankl, comandante designado do 1º Exército austro-húngaro, escreveu essas palavras em 31 de julho de 1914, o dia em que ficou claro que a disputa entre Áustria-Hungria e Sérvia, decorrente do assassinato do arquiduque Francisco Ferdinando, um mês antes, não seria resolvida pacificamente nem se limitaria a uma guerra nos Bálcãs. Quarenta e três anos haviam se passado desde a última guerra em que potências europeias se enfrentaram e, como muitos oficiais militares europeus da sua geração, Dankl, na época com 59 anos, temia servir toda a sua carreira sem experimentar um conflito desse tipo. Em 2 de agosto, em outra anotação em seu diário, ao se referir ao conflito que crescia rapidamente como "a Guerra Mundial", Dankl não podia imaginar o quão preciso se tornaria o rótulo: que a ação se estenderia ao Extremo Oriente, ao Pacífico Sul e à África Subsaariana; que mais de um milhão de homens dos impérios Britânico e Francês entrariam em ação em campos de batalha europeus; que os Estados Unidos teriam um exército de mais de 2 milhões de homens na França, apenas quatro anos mais tarde, ou que os países europeus seriam responsáveis por uma minoria de Estados participantes na conferência de paz pós-guerra.

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Como Dankl e outros generais, os estadistas que levaram a Europa à guerra no verão de 1914 não previram as consequências revolucionárias em todo o mundo do conflito cujo início eles saudaram (ou, pelo menos, fizeram muito pouco para desencorajar).

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Para além da Europa, a redistribuição das ex-colônias alemãs afetou o mapa da África, do leste da Ásia e do Pacífico, enquanto o fim do Império Otomano gerou o redesenho generalizado das fronteiras no Oriente Médio e, na Palestina, as raízes do moderno conflito árabe-israelense, decorrente das promessas contraditórias feitas pela Grã-Bretanha durante a guerra ao movimento sionista e a nacionalistas árabes.

Mais do que questões de fronteiras e território, a guerra também viria a revolucionar as relações de poder dentro das sociedades europeias.

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A guerra teve um impacto igualmente dramático sobre a posição da Europa no mundo. [...] como exemplo da falibilidade europeia, a Primeira Guerra Mundial lançou as sementes do movimento anticolonialista que irrompeu após a Segunda Guerra, época em que a explosão populacional no mundo não ocidental reduziu ainda mais o peso relativo de uma Europa que nunca se recuperara do choque demográfico da Primeira Guerra - uma guerra na qual a esmagadora maioria dos milhões de mortos tinha sido de europeus ou de pessoas de origem europeia.

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Nos primeiros dias de agosto de 1914, muitos observadores e participantes se juntaram a Viktor Dankl no reconhecimento do início de uma "grande guerra" ou "guerra mundial", do tipo que a Europa não via desde o final da época de Napoleão, um século antes. As Guerras Napoleônicas, e as guerras por império da Europa moderna, tinham apresentado uma ação em nível mundial em alto-mar e nas colônias, bem como nos campos de batalha europeus. Contudo, no final de agosto, o alcance e a intensidade do conflito em curso, no qual a maioria dos beligerantes já tinha perdido mais homens em uma única batalha, ou mesmo em um único dia, do que em guerras inteiras travadas durante o século XIX ou antes, levaram a maioria a reconhecer que estava testemunhando algo sem precedentes. Em setembro de 1914, em declarações citadas pela imprensa norte-americana, o biólogo alemão e filósofo Ernst Haeckel fez a primeira referência registrada ao conflito como "Primeira Guerra Mundial", em sua previsão de que a luta que começava "se tornar[ia] a primeira guerra mundial no sentido pleno da palavra". O rótulo de "Primeira Guerra Mundial" só se tornaria corrente depois de setembro de 1939, quando a revista Time e uma série de outras publicações popularizaram seu uso como corolário da expressão "Segunda Guerra Mundial", mas já em 1920 o oficial britânico - e jornalista em tempos de paz - Charles à Court Repington publicou suas memórias da guerra sob o título A Primeira Guerra Mundial, 1914-1918. Nos anos do entreguerras, uns poucos descrentes e pessimistas usavam "Primeira Guerra Mundial" em vez da mais comum "Grande Guerra" ou "Guerra Mundial", de modo a refletir a sua consternação por ela não ter sido, como Woodrow Wilson esperava, "a guerra para acabar com todas as guerras".

O uso da expressão, desde 1939, reflete a nossa conceituação da Primeira Guerra Mundial como precursora da Segunda - uma crença universal suficiente para acomodar não só visões opostas sobre a natureza da causa (por exemplo, de que a Segunda Guerra Mundial ocorreu porque Alemanha não tinha sido completamente esmagada durante a Primeira ou porque ela tinha sido desnecessariamente antagonizada na mesa de paz, depois do conflito), mas, ainda mais, a notável diversidade de lições aprendidas e aplicadas pelos países, líderes e povos envolvidos. Enquanto, na Alemanha e na Rússia, os regimes nazista e soviético se mostraram muito mais eficientes e cruéis do que seus antecessores de 1914 na mobilização de seus países para a guerra e sua condução até o amargo final - independentemente do custo em vidas humanas -, as democracias da Europa Ocidental, os domínios britânicos e a Itália demonstraram pouco desejo de repetir o sacrifício de sangue da Primeira Guerra Mundial e, em vários aspectos, adaptaram suas estratégias a isso, desastrosamente para França e Itália. Os Estados Unidos, cuja população ainda não estava pronta para abraçar o manto da liderança mundial no final da Primeira Guerra, mobilizaram-se para a causa uma geração mais tarde e com grande fervor após o choque de Pearl Harbor, enquanto seus líderes se beneficiaram da experiência de 1917 e 1918 na mobilização de recursos norte-americanos para travar a Segunda Guerra. Dos recursos consideráveis dos Estados Unidos, apenas seu contingente fez diferença na Primeira Guerra Mundial, já que a luta terminou antes que a força industrial norte-americana pudesse ser aplicada; assim, Alemanha e Japão subestimaram fatidicamente a capacidade bélica e a determinação nacional dos Estados Unidos na Segunda Guerra Mundial.

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A Segunda Guerra Mundial apresentou versões mais letais de todas as armas e táticas de campo de batalha que foram revolucionárias durante a Primeira Guerra, com a destacada exceção do uso de gás venenoso.

A magnitude da morte e da destruição causadas pela Segunda Guerra ultrapassou em muito a da Primeira, principalmente para as populações civis, mas, a partir de agosto de 1914, a Primeira Guerra Mundial testemunhou atos de brutalidade contra não combatentes que pressagiavam o que aconteceria em uma escala muito maior um quarto de século depois. Das execuções sumárias de civis belgas por soldados alemães e de sérvios por austro-húngaros, passando pela perseguição e, finalmente, chegando à matança genocida de armênios no Império Otomano, ao bombardeio aéreo de Londres e de outras cidades por zepelins alemães, as populações civis sofreram atrocidades em um nível que a Europa e sua periferia não viam desde que a Guerra dos Trinta Anos (1618-48) marcou o fim das guerras religiosas entre católicos e protestantes. Enquanto isso, no mar, o afundamento indiscriminado de milhões de toneladas de navios Aliados por submarinos alemães custou milhares de vidas e prenunciou as campanhas de guerra submarina indiscriminada de ambos os lados na Segunda Guerra Mundial, enquanto o bloqueio naval Aliado (principalmente britânico) às Potências Centrais trouxe desnutrição para as frentes internas da Alemanha e da Áustria e, no final das contas, doença e morte prematura de centenas de seus milhares de civis mais vulneráveis. É impressionante que as populações da frente interna não apenas tenham suportado essas dificuldades sem precedentes, mas, na maioria dos casos, tenham se tornado mais firmes em sua determinação à medida que a guerra se arrastava. Na verdade, enquanto a fadiga de guerra finalmente desencadeou os colapsos revolucionários na Rússia em 1917 e na Alemanha e na Áustria-Hungria em 1918, durante a maior parte da Primeira Guerra Mundial, os civis perseveraram como seus equivalentes dos países Aliados ocidentais, rejeitando a noção de uma paz negociada que tornaria sem sentido não apenas suas privações pessoais, mas, mais importante, as mortes de seus filhos, irmãos, pais e outros entes queridos. Essa perseverança serviu de aviso para líderes políticos sobre o risco, bem como a recompensa, da mobilização de um país para um esforço de guerra total na era do nacionalismo moderno: a guerra não poderia ser vencida sem esse apoio, mas, uma vez que os governos o recebiam, passava a ser uma questão de tudo ou nada, pois seu próprio povo não aceitaria a negociação de concessões como recompensa para esses sacrifícios. A infame observação atribuída a Joseph Stalin durante seus Grandes Expurgos da década de 1930, de que uma morte é uma tragédia e um milhão de mortes, uma estatística, poderia facilmente ter sido aplicada ao derramamento de sangue da Primeira Guerra, e realmente teria sido impensável se essa sangria não tivesse chegado antes. A Primeira Guerra Mundial - uma revolução global em muitos aspectos - acima de tudo redefiniu o que as pessoas poderiam aceitar, suportar ou justificar, e por isso se destaca como um marco na experiência humana pelo tanto que dessensibilizou a humanidade para a desumanidade da guerra moderna.

domingo, 5 de abril de 2015

Anatole France

Anatole France: Ceaselessly repeating that war is abominable, avoiding all the tortuous intrigues which might provoke it

M. Bergeret [fictional alter ego of Anatole France] has always detested war. In several of his books, Le Lys Rouge, L'Orme du Mail and Le Mannequin d'Osier, for example, he has expressed his hatred with an irony even more powerful than rage. Before the storm broke [World War I] he would sometime say that he did not believe in it, because formidable armaments would make it too horrible, and because the governments of Europe, all more or less tinged with democracy, would hesitate before the risks of warfare. At other times, however, like all of us, he was filled with dread.

"It would be madness," he wrote in the preface of Jeanne d'Arc, "to pretend that we are assured of a peace which nothing can disturb. The terrible industrial and commercial rivalries which are growing up around us, on the contrary, give us a foreboding of future conflicts, and there is no guarantee that France will not be involved one day in a European or world-wide conflagration."

A tragic prophecy which was to be confirmed only too soon, alas!

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[A]s for the pretence that the French love war; it is not true. No people ever love war. No people ever wanted to fight. At bottom, the crowd always looks upon fighting without enthusiasm.

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Our enemy was in no wise different from ourselves. Few of them were heroes. Many witnesses saw German soldiers weeping when they were sent into dangerous zones. And why mock at those tears? They were probably aroused by the memory of young wives who would never see their husbands again, of little children who would never kiss their fathers.

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It really seems to me quite impossible that the plain people can ever be infected with the jingoism which infects our middle-classes from time to time. On the contrary, I notice that anti-militarism is bolder than ever. Formerly the deserters, and the slackers, never tried to defend their conduct. "We are betrayed," they would shout. "We are sold!" That was their only justification.

Now they have a theory and reasoned motives. "Le Chant du Départ" has been replaced by a hymn "Pour ne pas Partir." To set one's refusal to music is to become glorious.


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I admit that our country would deserve to be passionately defended, if it were threatened. And then, we must clearly see in what way it has a right to our affection. If by the word country is meant the sum of great ideas and profound feelings, which differ from one country to another, and constitute French wit, English good sense, German dialectics, that is certainly a treasure which should be dear to every nation. It is a flag of light planted on each territory. The finest geniuses of each race have borne it higher and higher. After the event, they have given a magnificent spiritual significance to these groups which the fortuitous circumstances of history had originally brought together haphazardly.

But these moving national doctrines, if they differ, are not divergent, at least. The most eminent thinkers clasp hands across frontiers. They have neither the same tendencies nor the same thoughts, yet they are brought together by their humanity, by their compassion for their fellow-men. It is, therefore, by a culpable deception that people try to oppose one national consciousness against another. On the contrary, in their most serene expression they are complementary. A man can adore his own country while revering others.

Unfortunately, a country is not only a collection of radiant ideas. It is also the business address of a host of financial enterprises of which many have little to recommend them. More than anything else it is the antagonism of capitalistic appetites, often most illegitimate, which drives the nations into conflict, and causes modern wars. Nothing could be sadder. From the bottom of my soul I wish my country to abstain from all greed which might make her in the slightest degree responsible for a struggle.


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THE OLD POET. - "... Chauvinism has its good points."

FRANCE. (emphatically) - Not at all! It is criminal folly. When the jingos say that war is sublime, that it is the school of all the virtues, that it refashions and regenerates men, that Providence gives victory to the most worthy, and that the greatness of a people is measured by its victories, by massacres in which its own children perish with the enemy, they are ridiculous and odious.

THE OLD POET. - "But how will you persuade people to sacrifice themselves to their country?"

France. - By making the country always better, always more just, more maternal towards the people... more loyal, more fraternal towards other nations... by ceaselessly repeating that war is abominable, by carefully avoiding all the tortuous intrigues which might provoke it... by proving by the striking frankness of our conduct that we do not wish to take up arms, that we shall use them only to defend our liberty.

Then the people will love their country which will be identified in their hearts with the finest future of the human race. And if, by any misfortune, it is attacked, they will not allow it to succumb.



Fonte:
http://rickrozoff.wordpress.com/2013/01/13/anatole-france-ceaselessly-repeating-that-war-is-abominable-avoiding-all-the-tortuous-intrigues-which-might-provoke-it