
Se me perguntarem, considero-me mais sintonizado com o
Japão que com o sertão de Inhamuns. Uma coleção de nomes
evocativos, como se eu tivesse passeado por lá. Recordo Godzilla, Kamen
Rider, biombo com desenho de árvore sakura, chapeuzinho do Raiden,
máscaras kabuki, tempero Ajinomoto, Sega, motocas Honda, karaokê,
Toshiba, portas corrediças de papel, quimonos, partidas de go,
nunchakus, kendo, origami, tatuagens yakuza, bonsai, trem-bala,
shamisen, gueixas de leque. Até a grande atriz Joan Fontaine, 5 meses
mais nova que meu avô materno, nasceu em Tóquio.
Falo isso
porque, na recente festa de aniversário do vô Antonino - 94 anos,
artrítico viúvo resmungão bom de garfo e de copo, sobrevivente de: 2
enfartos, 1 ataque de jaguatirica, 1 queda de avião teco-teco, 1 tiro
efetuado por jagunço, 1 alcatéia de bisnetos a implorar centavos e 1
noite de mingau de aveia com arsênico preparado por empregadinha ingrata
-, encontrei, depois de anos e danos, o primo Gil. Ele virou sozinho 8
garrafas de cerveja e lembramos diversas histórias.
Teve a vez
em que combinamos dar umas voltas com a turma de sempre pela Praia de
Iracema. Na época, ele servia no Forte Schoonenborch, o mesmo em que
esteve presa a Bárbara de Alencar. Fui esperá-lo na calçada em frente,
enquanto reparava no desfile de turistas bonitas, as peles dum
avermelhado de camarão. Circulavam, segurando contra o vento enormes
mapas, registrando em vídeo a paisagem ou apenas conversando, famílias
paulistanas, músicos de Bremen, freiras italianas, marinheiros
noruegueses, mascates da Síria, estudantes de intercâmbio de Serra Leoa,
antropólogos franceses e narcomilicianos da Colômbia - boinas com
estrelinha, calças camufladas, coturnos - tirando férias da luta por
justiça & paz. Uns cinco minutos e ele apareceu, do tamanho de uma
sequóia, mochilão nas costas, cabelo cortado rente na cabeçorra de
pitbull e camiseta com um discreto escudo do Exército no lado esquerdo
do tórax. Cumprimentou-me com gíria de caserna.
Descíamos pela
rua José Avelino, perto de onde funcionava a hoje extinta boate
Mystical, a gaiola das loucas, quando topamos com um grupo de japoneses
que rodopiavam, discutiam, apontavam para direções opostas. Perdidos.
Provavelmente, adeptos de alguma filosofia de Não ser careta, de
deixar-se levar pela magia do acaso nos labirintos das cidades
estrangeiras ou babaquices do gênero. Camisas floridas, bermudas, bonés,
sacolas, incansáveis máquinas fotográficas. Pensem num conjunto que era
um estereótipo ambulante, fuzarca de desorientados.
Aproximamo-nos
dos asiáticos e eles foram logo pedindo ajuda, informação. Hipótese,
pois minha ignorância em relação ao idioma de Matsuo Basho e de Astro
Boy era tão alta quanto a taxa de suicídios da terra do sumô. Falha na
comunicação. Consegui entender, graças a uma imagem em folder rabiscado
de caracteres kanji nervosamente cutucada por dedos indicadores, que
eles queriam ir à praça Cristo Redentor. Dura peleja, gesticulamos aos
visitantes que os acompanharíamos ao local desejado. O sacana do Gil,
aproveitando-se da confusão babélica e tendo a certeza de sair impune,
mandou a seguinte, com inexplicáveis trechos em inglês e artificial
sotaque arretado:
- Tudo ok, ninja friends. Felicidades. Nós aqui
de Fortaleza ser igual a vocês Nippon, também curtir very much
acorrentar garotas dopadas e fazer fuk-fuk nelas. Banzai!
Vê se
pode. Fiquei estático como um monte Fuji, pelo gosto duvidoso da
brincadeira. Com um cenho franzido de quem tomou óleo de rícino ou foi
presenteado com livro de crônicas do Arnaldo Branco. Os simpáticos
samurais bebedores de saquê, sem compreender patavina do comentário,
agradeciam com mesuras e inclinações de arigatô. Caminhamos resolutos,
semelhantes a kamikazes rumo à proa de um encouraçado americano.