quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Data Center

Em Fortaleza, a Data Center ficava na rua Barão do Rio Branco, Nº 750. A seguir, o capítulo 4 do livro didático do curso de Introdução aos (micro)Computadores [1985], de autoria do professor Paulo Bianchi França. Direto do túnel do tempo.











segunda-feira, 31 de outubro de 2011

The legend of Zilda

O Máiquel (argh... Jesus!) parecia ter um Desculpe qualquer coisa tatuado na acidentada testa de Cro-Magnon. E no traseiro acostumado a pontapés, um Agradecemos a preferência, desses de churrascaria com telão para transmitir jogo do Brasileirão. Ele tinha uma apagada e quase enfermiça cor roxa comum aos afogados e ao papel celofane de gosto suspeito.

Conheci-o quando fazíamos curso de montagem e manutenção de computadores no SENAC, ali na Tristão Gonçalves. Foi em uma ocasião, na cantina, eu mordiscando um oleoso pastel de queijo que ensopava o guardanapo, que o esquisitão dirigiu-se a mim pela inaugural vez. Eu sentava ao lado dele em uma das bancadas, na sala B4, os pares de alunos que observavam as CPUs de macarrônicas vísceras expostas, como numa aula de anatomia, tudo sob a veemente iluminação dos retângulos fluorescentes do teto. Essa proximidade geográfica deve tê-lo encorajado. Mau sinal. Em clima de confidência, ele contou que estava com dificuldades, se eu poderia esclarecer tal dúvida. Por que não fala com o professor, anta?, pergunta a esfinge. Em vão.

Rapaz, só sei que o hiena Hardy ficou de tramela solta e importunou-me com um resumo não-solicitado de sua vida. Descobri, e não me orgulho disso, que se tratava d'O pobrinho batalhador. Do tipo que se intimidava com a catraca high tech que permitia nossa entrada no prédio pela identificação do polegar encostado numa telinha de cristal. No infame covil em que morara com a mãe solteira, dois irmãos e uma irmã, um menos promissor que o outro, apelara, em deprimentes paródias de almoço, a um copo de aluá com uma lata de ervilhas fora do prazo de validade. A mãe, sem tostão nem profissão e desesperada, pensou até em envenenar piedosamente (?) as crias com cicuta, estricnina, o diabo. Narrativa pedestre e desinteressante, é óbvio. Foi salvo desse cotidiano de letra de rap ao ser amadrinhado por uma dondoca, tia distante já meio que enjoando do caviar e de Bariloche. A matrona endinheirada, sucesso no ramo da confecção, escapou do tédio quando virou moda no seu círculo de amigas a filantropia publicitária, como anteriormente haviam sido moda os estofados em tons de sépia, os bibelôs de material reciclado, os livros de Khalil Gibran e o penteado da Ana Maria Braga. Um arremedo desses programas de auditório nos quais o cara pega um portador-de-necessidades-financeiras-especiais e custeia reforma da casa, cesta básica, aparelho de estampar camiseta, giro de limusine, banho de loja, manicure, veterinário. Era ela quem pagava a mensalidade e auxiliava o pequeno Máiq a conquistar as tábuas do monte SENAC.

Os meses passaram e vieram os exames finais. No primeiro deles, o cidadão M apareceu trajando uma máscara de borocoxô que era um caso sério. Verdadeiro cão hidrófobo esperando injeção letal, resto de gato amassado com marca de pneu no dorso. Época atarefada no armazém em que trabalhava, explicou-me, nervoso. Estudara mal e porcamente para os testes práticos. Calma, relaxa, eu disse, esforçando-me para engolir um "seu trouxa". Uma dupla era sorteada e ia para uma bancada lá diante da turma inteira, onde estava um dos gabinetes de lateral aberta trazidos pelo grande professor Sérgio (grande mesmo: ótimo docente e mais de 1,90 de altura). A missão, achar o defeito que impedia a máquina de iniciar corretamente. Fui com o Rafa à mesa de operações. 2 minutos. Cronometrando. Valendo. Concentração agora. Ei, o que é aquilo? Um jumper encaixado nos pinos em posição 2-3, mas o certo seria em 1-2. Muito fácil.

- Tempo esgotado. Qual o diagnóstico, minha gente?

Respondemos.

- Experimentem.

Liga estabilizador. Aperta botão Power. O reconfortante e aprovador barulhinho do bip.

- Excelente. Voltem a seus lugares.

O ratinho assustado teve como companhia a garota que sempre chegava atrasada e nunca puxava conversa com alguém da classe. Tinha uns cabelos negros como a asa da graúna, um derrière imponente e maciço como uma Bastilha e uma comissão de frente herdada de alguma divindade babilônica. Rapidinho, botaram nela (epa) o apelido de Zilda. Boazilda, Gostosilda. Depois, espiando as assinaturas da lista de presença que ia de mão em mão, vimos que se chamava Karina. 2 minutos. Cronometrando. Valendo. Inclinados sobre o paciente, trocavam olhares clínicos de E então?. Nada. A fronte do bosquímano perlava-se de suor, um bolo obstruía-lhe a garganta. E pouco ajudava a visão daquele pedação de mulher recendendo a loção, curvada acima do amontoado de hardware, o avantajado busto saltando da folgada blusa estilo cigana. Ele mirava os fios em amarelo-preto-vermelho, mirava o nicho do par de fru
tões. Mirava a bateria de lítio, mirava os frutões. Os pentes de memória RAM, os frutões. Conectores do HD, frutões. Barramento PCI, frutões. Chipset, frutões.

- Tempo esgotado. Qual o diagnóstico, minha gente?

Um silêncio atordoante. Pressão demais. O mico Máiquel explodiu:

- O sutiã da Zilda é verde-malva com uns floreados em relevo.

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Axiomas de Winnie

Figuras femininas do mundo pop que publicaram livros não são exatamente o que se chame de raridade. Desde a barbie Hilary Duff, passando pela madame wisecrack Zsa Zsa Gabor até a provocante Jennifer Love Hewitt. Mas, ei, quantas vocês conhecem que se lançaram a escrever sobre... Matemática?

Danica McKellar fez bastante sucesso como a ultrameiga Winnie Cooper do seriado Anos Incríveis, a menin-

e aquela abertura, hein? a família Arnold posando para a câmera Super-8; ao fundo, o tal do sonho americano, com a casinha branca, a cerca viva, o gramado frontal, o Impala estacionado; Kevin numa camisa verde quase fosforescente, ensaiando mira com o taco de baseball; tchauzinhos; Paul Pfeiffer aparentemente tendo um ataque de asma no meio-fio da calçada; Jack e Norma presidindo o churrasco; Wayne desferindo uma bandejada na testa da Karen; brigas fajutas; Kevin recebendo das mãos de sua musa Winnie (de macacão, boné vermelho e óculos de datilógrafa) a enorme e estranha noz que é a bola de football; uma discussão talvez acerca do placar; e, é claro, a exagerada (inspirada, julgarão outros) interpretação de Joe Cocker para With A Little Help From My Friends

- como eu ia dizendo, a menina certinha da pacata e tediosa rua suburbana, com suas blusinhas de cashmere ou vestidos à Nancy Sinatra
na ida à parada do ônibus escolar, carregando em postura de abraço tomos de Álgebra e cadernos e que teve o irmão mais velho morto no Vietnã. Pois ela deu um tempo na carreira de atriz, foi estudar Matemática na Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA) e graduou-se em 1998 com um cobiçado summa cum laude. Existe inclusive um teorema com o nome dela, o 'Chayes-McKellar-Winn theorem'. Em 2007, ela estreou no mercado editorial com Math Doesn't Suck, subtítulo How To Survive Middle-School Math Without Losing Your Mind Or Breaking A Nail. Não o li, baseio-me no aperitivo em flash disponível no amazon.com.

A obra é dedicada à irmã dela, Crystal McKellar, que também atuou em Anos Incríveis, encarnando a rancorosa, violenta e hilária Becky "I Hate Men" Slater. Danica começa contando como era terrified of math, trazendo-nos a difundida imagem dos algarismos e das equações na lousa como texto chinês de cabeça para baixo ou hebraico ao contrário, caso de prova entregue em branco e a posterior reviravolta, com a descoberta de macetes e truques. Lembram-se do "As aves que aqui gorjeiam não gorjeiam como lá, senoA.cossenoB + senoB.cossenoA", prelúdio para a fórmula de sen(A + B)?

As dicas dirigem-se para garotas que estejam em algum lugar da adolescência. Parágrafos como o seguinte deixam isso bem óbvio:

"Let's get a few things straight: Acne sucks. Mean people suck. Finding out that your boyfriend kissed another girl? That would totally suck. Too much homework, broken promises, detention, divorce, insecurities: suck, suck, suck, suck, suck. But math is actually a good thing."

Na verdade, deveria aventurar-se nessa leitura qualquer pessoa minimamente curiosa que tropeça em aritmética elementar, que fica zonza ao pensar na magnitude da constante de Avogadro, nas cifras relativas ao número de vítimas da fome de Bengala em 1770 ou no total de crioulos dizimados no Congo durante um pedaço do reinado de Leopoldo II, soberano da Bélgica.

Tem uma parte muito interessante:

"When I was in middle-school, I had insecurities like everybody else. It didn't help that I was on a TV series (The Wonder Years) at the time. Don't get me wrong - I loved acting, but it didn't take long for me to learn that when you are acting in front of millions of people you get a lot of attention that doesn't necessarily have anything to do with who you really are. Every day, walking down the street, people would come up to me, ask for my autograph, and tell me how much they loved the character I was playing. Great, right?

Well, after a few years of this, I started to wonder if people would still like me if I weren't on television. Eventually, whenever someone would tell me how much they liked my character, I would say 'thank you', and then feel kind of empty inside. I started to question my self-worth."


Consideração que me remete a dois pontos:

1º) Um trecho de Pensamentos, do francês Blaise Pascal:

"Quando gostamos de uma pessoa por causa de sua beleza, gostamos dela? Não; pois a varíola, que tirará a beleza sem matar a pessoa, fará que não gostemos mais; e, quando se gosta de mim por meu juízo, ou por minha memória, gosta-se de mim? Não; pois posso perder essas qualidades sem me perder. Onde está, pois, esse eu, se não no corpo nem na alma? E como amar o corpo ou a alma, se não por essas qualidades, que não são o que faz o eu, de vez que são perecíveis? Com efeito, amaríamos a substância da alma de uma pessoa abstratamente, e algumas qualidades que nela existissem? Isso não é possível, e seria injusto. Portanto, não amamos nunca a pessoa, mas somente as qualidades."

Nota de rodapé referente a esse trecho: "Pascal sofisma: como muito bem observa Havet, não existem qualidades separadas das coisas."

2º) No episódio 01x01 de House, MD, legenda em português de um inquietante diálogo entre o carismático protagonista misantropo e a médica auxiliar Allison Cameron:

- Isso a incomoda? Mesmo? Pensar que foi contratada por um legado genético de beleza ao invés de um legado genético de inteligência?
- Batalhei muito para chegar aonde estou.
- Mas não precisava.
[...] Poderia ter ficado rica se casando, ter sido modelo. Só precisava parecer para conseguir as coisas. [...] Mulheres lindas não fazem medicina. A não ser que tenham sido magoadas na proporção da beleza.

Enfim: esse assunto vai longe e não cabe numa postagem de blog.

O capítulo 1 aborda fatoração e números primos, com problemas e imaginosas aplicações. Os diferentes padrões para montar um bracelete com 8 contas de jade e 16 de ônix. Como dividir batons pelas bolsas de uma excêntrica celebridade hollywoodiana. "It's hard to believe that there's no way to evenly divide up 101, but it's true!", comenta. Ao falar em árvores de fatores, exemplifica:


E observa que, mesmo em variações, as "folhas" da árvore nunca mudam. Ou seja (e agora arrisco uma intromissão):


E o resto da amostra grátis amazônica do produto é uma miscelânea de sugestões para organizar o aprendizado e superar bloqueios.

domingo, 21 de agosto de 2011

Povo do Walmart

Quando eu crescer, quero blogar que nem os caras do People Of Walmart.

























Agora repitam comigo, usando gíria de vovô e tudo: Blog supimpa!

 
"Blog supimpa!"

  
"Blog supimpa!"

 
"Blog supimpa!"

 
"Blog supimpa!"

 
"Blog supimpa!"

 
"Blog supimpa!"

 
"Blog supimpa!"

 
"Blog supimpa!"

 
"Blog supimpa!"

 

 

domingo, 31 de julho de 2011

Branch out

E aí que uma colega reuniu um pessoal para um agito de sábado à noite no apartamento. Permitam-me gastar dois centavos descrevendo a moça, que é muito bonita, com cabelos que são labaredas ruivas, silhueta delgada com curvas, elipses e convexos nas regiões certas e olhos caramelados mas um tanto arrogantes. A anfitriã anunciou aos intimados, em e-mail flyer produzido no Photoshop, que cada um de nós deveria enviar uma mensagem Re: tendo como anexo algum sucesso ligeiro da década 00, que ela posteriormente gravaria em CD e colocaria para rolar na hora da festa. Interessante. Esses membros do jet set, sempre inventando moda, querendo superar-se. Claro que ela usou sua mágica particular para evitar repetições. Abracadabra, alakazan.

Sabem como é essa história de happy hour. Os cubos de gelo tilintando em copos que transbordam de conhaque, os convidados depenando sem modos a bandeja dos salgadinhos, um jogador apostando aliança de casamento no pôquer, uma pinguça louca ameaçando pagar de striptease, ignorando as vassouradas na parede contígua do vizinho incomodado com a balbúrdia, o nevoeiro de nicotina pairando e a gente falando mal dos amigos ausentes. Na trilha sonora, Hey Ya! (Outkast), This Love (Maroon 5), Come Into My World (Kylie Minogue), Jaded (Aerosmith), Don't Lie (The Black Eyed Peas), Keep On Rising (Ian Carey) e outros. Eu debatia com o Godofredo os recursos do Windows 7 quando surgiram os primeiros acordes da minha contribuição. O Carlos Santana é aquilo. Talentoso cucaracha, guitar hero e sósia de Muammar al-Gaddafi. Essa era a faixa 3 do álbum Shaman, de 2002, trabalho que contava com diversas participações especiais.

E agora observemos a garota que canta esse tal Game Of Love. Chama-se Michelle Branch. Nascida em 1983, numa cidadezinha do estradeiro e calorento Arizona. É multiinstrumentista. Tem um Grammy no currículo. Fez pontas em seriados como Buffy, A Caça-Vampiros e One Tree Hill. Executa um popzinho inofensivo e despretensioso (um recente flerte com o country), com uma voz limitada, arranjos primários, refrões grudentos e letras banais que vão do nada a lugar nenhum. Curioso é que há um clipe dela, Everywhere, com trechos no melhor espírito da farra de prédio.

Aconteceu que, semanas depois dessa confraternização, eu estava no Shopping Aldeota atrás de comprar um cabo flat. Na praça de alimentação, inconvenientemente lotada de adolescentes, esbarrei com a Tata, filha mais velha (13 anos) da minha prima Jackie. Acompanhando a pirralha, um grupo de meninas de idades sub-15 que conversavam animadamente sobre a Lady Gaga. Vocês não enjoam dessa sirigaita?, caí na besteira de questionar, sendo merecidamente açoitado por gritos de "PO PO PO POKER FACE!", "Chato, careta!". Pois esperem o coroa aqui mostrar uma coisa, revidei. Saquei meu MP4 do coldre e dei play numa música da Michelle. "Urra, tio, a parada é massa, quem é?", indagou uma loira sardenta cheia de pulseiras. Eu disse o nome. "Nunca vi mais gorda!", exclamou uma morena de piercing no nariz. Antes de ir embora, perguntei de esguelha à Tata, Vem cá, tua mãe, implicante como é, deixou mesmo tu sair vestida assim (exígua minissaia no estilo apareceu-a-margarida)? "Se eu tivesse pedido, ela não teria deixado, seu bobo!", foi a resposta. Ah, entendi.

O som que apresentei às luluzinhas gagaístas foi este. Digam se não é uma beleza.

quinta-feira, 30 de junho de 2011

Fala o Doutor

Do acervo do sempre relevante pesquisador Miguel Ângelo de Azevedo, o Nirez, uma pergunta a Humberto Teixeira, alcunhado Doutor do Baião:

Nirez - O "Juazeiro" foi plagiado pelos americanos. Como foi aquela história?
Humberto Teixeira - Um marinheiro americano pegou o disco com o "Juazeiro" no Rio, levou e gravou com outro nome. O que é incrível é que ele, através de um processo tecnológico até conhecido aí, copiou o disco, tirando a letra e aí botaram em cima a letra de Peggy Lee. Você escuta no disco de Peggy Lee os acordes d'Os Cariocas. Isso é que é impressionante. Mudaram o nome, mudaram tudo. Mas o plágio não foi lá não. O plágio se estendeu à França, onde ela foi gravada com o título de "Le Voyageur", O viajante. Eu encontrei e tenho esse disco também. Nós nunca conseguimos nos ressarcir desses direitos injuriados e usurpados, nada disso. E o que é mais incrível: a Peggy Lee, numa viagem que eu fiz aos Estados Unidos, tornou-se minha amiga. Eu contei o fato pra ela e ela disse que era inocente e que tinha gravado uma música que a fábrica havia lhe dado. Ela dizia: "Não tenho nada com isso. O que você está contando me traz até remorso."

terça-feira, 31 de maio de 2011

Nossos japoneses são mais criativos

Se me perguntarem, considero-me mais sintonizado com o Japão que com o sertão de Inhamuns. Uma coleção de nomes evocativos, como se eu tivesse passeado por lá. Recordo Godzilla, Kamen Rider, biombo com desenho de árvore sakura, chapeuzinho do Raiden, máscaras kabuki, tempero Ajinomoto, Sega, motocas Honda, karaokê, Toshiba, portas corrediças de papel, quimonos, partidas de go, nunchakus, kendo, origami, tatuagens yakuza, bonsai, trem-bala, shamisen, gueixas de leque. Até a grande atriz Joan Fontaine, 5 meses mais nova que meu avô materno, nasceu em Tóquio.

Falo isso porque, na recente festa de aniversário do vô Antonino - 94 anos, artrítico viúvo resmungão bom de garfo e de copo, sobrevivente de: 2 enfartos, 1 ataque de jaguatirica, 1 queda de avião teco-teco, 1 tiro efetuado por jagunço, 1 alcatéia de bisnetos a implorar centavos e 1 noite de mingau de aveia com arsênico preparado por empregadinha ingrata -, encontrei, depois de anos e danos, o primo Gil. Ele virou sozinho 8 garrafas de cerveja e lembramos diversas histórias.

Teve a vez em que combinamos dar umas voltas com a turma de sempre pela Praia de Iracema. Na época, ele servia no Forte Schoonenborch, o mesmo em que esteve presa a Bárbara de Alencar. Fui esperá-lo na calçada em frente, enquanto reparava no desfile de turistas bonitas, as peles dum avermelhado de camarão. Circulavam, segurando contra o vento enormes mapas, registrando em vídeo a paisagem ou apenas conversando, famílias paulistanas, músicos de Bremen, freiras italianas, marinheiros noruegueses, mascates da Síria, estudantes de intercâmbio de Serra Leoa, antropólogos franceses e narcomilicianos da Colômbia - boinas com estrelinha, calças camufladas, coturnos - tirando férias da luta por justiça & paz. Uns cinco minutos e ele apareceu, do tamanho de uma sequóia, mochilão nas costas, cabelo cortado rente na cabeçorra de pitbull e camiseta com um discreto escudo do Exército no lado esquerdo do tórax. Cumprimentou-me com gíria de caserna.

Descíamos pela rua José Avelino, perto de onde funcionava a hoje extinta boate Mystical, a gaiola das loucas, quando topamos com um grupo de japoneses que rodopiavam, discutiam, apontavam para direções opostas. Perdidos. Provavelmente, adeptos de alguma filosofia de Não ser careta, de deixar-se levar pela magia do acaso nos labirintos das cidades estrangeiras ou babaquices do gênero. Camisas floridas, bermudas, bonés, sacolas, incansáveis máquinas fotográficas. Pensem num conjunto que era um estereótipo ambulante, fuzarca de desorientados.

Aproximamo-nos dos asiáticos e eles foram logo pedindo ajuda, informação. Hipótese, pois minha ignorância em relação ao idioma de Matsuo Basho e de Astro Boy era tão alta quanto a taxa de suicídios da terra do sumô. Falha na comunicação. Consegui entender, graças a uma imagem em folder rabiscado de caracteres kanji nervosamente cutucada por dedos indicadores, que eles queriam ir à praça Cristo Redentor. Dura peleja, gesticulamos aos visitantes que os acompanharíamos ao local desejado. O sacana do Gil, aproveitando-se da confusão babélica e tendo a certeza de sair impune, mandou a seguinte, com inexplicáveis trechos em inglês e artificial sotaque arretado:

- Tudo ok, ninja friends. Felicidades. Nós aqui de Fortaleza ser igual a vocês Nippon, também curtir very much acorrentar garotas dopadas e fazer fuk-fuk nelas. Banzai!

Vê se pode. Fiquei estático como um monte Fuji, pelo gosto duvidoso da brincadeira. Com um cenho franzido de quem tomou óleo de rícino ou foi presenteado com livro de crônicas do Arnaldo Branco. Os simpáticos samurais bebedores de saquê, sem compreender patavina do comentário, agradeciam com mesuras e inclinações de arigatô. Caminhamos resolutos, semelhantes a kamikazes rumo à proa de um encouraçado americano.