domingo, 13 de dezembro de 2015

Dentro da baleia

Trechos de ensaios da coletânea Dentro Da Baleia (2005), de George Orwell.


Aos onze, quando eclodiu a Primeira Guerra Mundial, escrevi um poema patriótico que foi publicado no jornal local, e outro dois anos mais tarde, sobre a morte do marechal-de-campo Kitchener de Cartum.

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Quando jovem, Gandhi serviu como maqueiro no lado britânico durante a Guerra dos Bôeres, e se dispôs a fazer o mesmo na guerra de 1914-18. Mesmo depois de ter repudiado totalmente a violência, foi bastante honesto para entender que numa guerra é em geral necessário tomar partido. Não adotou - de fato, uma vez que sua vida inteira se concentrava na luta pela independência nacional, não poderia adotar - a posição improdutiva e desonesta de pretextar que em todas as guerras ambos os lados são exatamente iguais e não faz diferença quem vence.

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Podemos ver a mudança na atitude literária dominante ao comparar os livros escritos sobre a Guerra Civil Espanhola com os escritos sobre a Primeira Guerra Mundial. O que surpreende de imediato com relação aos livros sobre a Guerra Civil Espanhola, ao menos os escritos em inglês, é que são terrivelmente obtusos e inábeis. Mas o mais significativo é que quase todos, direitistas ou esquerdistas, foram escritos de um ponto de vista político, por partidários dogmáticos que nos dizem o que pensar; ao passo que os livros sobre a Primeira Guerra Mundial foram escritos por soldados comuns ou oficiais subalternos que nem sequer tiveram a pretensão de entender do que se tratava. Livros [...] escritos não por propagandistas, mas por vítimas. Na verdade dizem: "Mas qual é o sentido disso? Só Deus sabe. Tudo o que podemos fazer é resistir."

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Mas [A. E.] Housman não teria atraído de maneira profunda os jovens em 1920 se não fosse por outra tendência, uma tendência irreverente, antinômica, "cínica". O conflito que sempre ocorre entre as gerações foi excepcionalmente acrimonioso no fim da Primeira Guerra Mundial; isso em parte por causa da própria guerra e em parte como resultado indireto da Revolução Russa, mas em todo caso se esperava uma luta intelectual naquela época. Devido talvez à tranquilidade e à segurança da vida na Inglaterra, que mesmo a guerra mal perturbou, muitas das pessoas que formaram seus conceitos na década de 1880, ou antes, os sustentaram sem muitas modificações na década de 1920. Nesse meio-tempo, no que dizia respeito à geração mais jovem, as convicções oficiais se dissolviam como castelos de areia. O declínio da crença religiosa, por exemplo, foi impressionante. Durante anos o antagonismo velho/jovem assumiu um caráter de verdadeiro ódio. Os que restaram da geração da guerra escaparam do massacre para constatar que os mais velhos ainda berravam os bordões de 1914, e uma geração de jovens ligeiramente mais novos estremecia sob o domínio de mestres-escola celibatários de mentalidade sórdida. Eram eles que Housman atraía com sua revolta sexual implícita e seu ressentimento pessoal contra Deus. Verdade que era patriótico, mas de modo antiquado e inócuo, com sua cota de casacos vermelhos e "Deus salve a rainha", em vez de capacetes de aço e "Enforquem o kaiser". E era anticristão o suficiente - apoiava uma espécie de paganismo rancoroso e desafiador, a convicção de que a vida é curta e os deuses estão contra nós, o que se ajustava com perfeição à disposição de ânimo predominante dos jovens; e tudo em sua poesia frágil e encantadora, quase toda composta de palavras monossilábicas.

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Se a tônica dos poetas georgianos era a "beleza da natureza", a tônica dos escritores do pós-guerra seria o "sentido trágico da vida". O espírito subjacente nos poemas de Housman, por exemplo, não é trágico, simplesmente queixoso; é o do hedonismo desiludido.

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A ligação mental entre pessimismo e uma perspectiva reacionária é sem dúvida bastante óbvia. Talvez menos óbvio seja exatamente por que escritores importantes da década de 1920 eram predominantemente pessimistas. Por que sempre o sentimento de decadência, os crânios e os cáctus, o anseio pela perda da fé e das civilizações impossíveis? Não seria, afinal, porque essas pessoas escreviam numa época excepcionalmente confortável? Só em tempos assim o "desespero cósmico" pode medrar. As pessoas de barriga vazia jamais perdem a esperança no universo, aliás nem sequer pensam no universo. Todo o período de 1910-30 foi próspero, e mesmo os anos da guerra foram fisicamente toleráveis, para quem não fosse combatente de um dos países aliados. Quanto à década de 1920, foi a idade de ouro do intelectual rentier, um período de irresponsabilidade que o mundo jamais vira antes. A guerra estava acabada, os novos Estados totalitários não tinham surgido, os tabus morais e religiosos de todos os tipos haviam desaparecido, e o dinheiro circulava. A "desilusão" era a grande moda. Todo mundo de posse de quinhentas libras seguras por ano se transformou em intelectual e começou a se exercitar em taedium vitae. Era uma época de insígnias e pães de minuto, desesperos inautênticos, Hamlets de quintal, passagens de ida e volta baratas no fim da noite. Em alguns romances característicos menores do período, livros como Told by an Idiot, a desesperança da vida chega a uma atmosfera de banho turco de autocomiseração.

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O movimento comunista na Europa Ocidental começou como um movimento para a derrocada violenta do capitalismo e degenerou, em poucos anos, num instrumento da política externa russa. Isso foi provavelmente inevitável quando a fermentação revolucionária que se seguiu à Primeira Guerra Mundial se extinguiu.

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Quase todos os escritores influentes da década de 1930 pertenciam à classe média emancipada e moderada, e eram jovens demais para ter memórias reais da Primeira Guerra Mundial. Para pessoas desse tipo, coisas como expurgos, polícia secreta, execuções sumárias, prisão sem julgamento etc. são muito remotas para ser aterrorizantes.

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Para mim, a coisa assustadora em relação à guerra na Espanha não foi a violência que testemunhei, nem mesmo as rixas partidárias detrás das linhas, mas a imediata reaparição nos círculos esquerdistas da atmosfera mental da Primeira Guerra Mundial. As próprias pessoas que por vinte anos haviam rido de sua própria superioridade para combater a histeria foram as que voltaram correndo para a miséria mental de 1915. Todas as familiares idiotices do período da guerra, caça a espiões, suspeita de ortodoxia (Suspeite, suspeite. Você é um bom antifascista?), a venda a varejo de inacreditáveis relatos de atrocidades, voltaram à moda como se os anos intermediários nunca tivessem existido.

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Quando examinamos os livros de memórias escritos sobre a guerra de 1914-18, notamos que quase todos os que continuaram legíveis após a passagem do tempo foram escritos de um ponto de vista negativo, passivo. São registros de algo totalmente inexpressivo, um pesadelo que ocorre num vazio. Não era a verdade exata acerca da guerra, mas a verdade acerca de uma reação individual. O soldado que avança em direção à linha de fogo das metralhadoras ou que permanece imerso até a cintura numa trincheira inundada sabia apenas que aquela era uma experiência aterradora na qual estava praticamente impotente. O mais provável é que escrevesse um bom livro com base nessa impotência e ignorância do que um com base numa pretensa capacidade de enxergar todo o quadro em perspectiva. Quanto aos livros escritos durante a guerra, os melhores foram quase todos de pessoas que simplesmente viraram as costas e procuraram não notar que a guerra estava acontecendo.

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Que alívio deve ter sido em tal época ler sobre as hesitações de um intelectual de meia-idade com sinais de calvície. Tão diferente do exercício com baionetas! Depois das bombas, das filas para a ração e dos cartazes de recrutamento, uma voz humana. Que alívio!

Mas, afinal, a guerra de 1914-18 foi apenas um momento mais grave de uma crise quase contínua. Nessa época, nem é necessária uma guerra para demonstrar a desintegração de nossa sociedade e a impotência cada vez maior de todas as pessoas honestas.

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Ao contrário da crença popular, o passado não foi mais rico de acontecimentos do que o presente. Se assim parece é porque, quando se olha para trás, fatos acontecidos de modo isolado num intervalo de anos se condensam, e pouquíssimas recordações nos ocorrem em estado verdadeiramente puro. Deve-se em grande parte a livros, filmes e memórias divulgados nesse ínterim a suposição de que a guerra de 1914-18 teve um extraordinário caráter épico que falta à atual.

Mas quem estava vivo durante aquela guerra, e desembaraçou suas recordações dos acréscimos posteriores, verificará que em geral os grandes acontecimentos da época não comoviam. Não creio que a Batalha do Marne, por exemplo, teve para o público o caráter melodramático que lhe conferiram depois. Nem sequer me lembro de ter ouvido a expressão "Batalha do Marne" até anos depois. Era só que os alemães estavam a uns trinta quilômetros de Paris - por certo isso era muito aterrorizante, após os relatos da atrocidade belga - e então, por algum motivo, recuaram. Eu tinha onze anos quando a guerra começou. Se estou realmente pondo em ordem minhas recordações e desconsiderando o que vim a saber desde então, devo admitir que nada em toda a guerra me tocou mais e de modo mais profundo do que a perda do Titanic anos antes. O desastre, comparativamente sem importância, chocou o mundo inteiro, e o choque ainda mal havia passado. Lembro-me dos terríveis e detalhados relatos lidos em voz alta à mesa durante o café da manhã (naquele tempo era costume ler jornais em voz alta) e de que, na extensa lista de horrores, o que mais me impressionou foi que no fim o Titanic de repente se aprumou e afundou primeiro com a proa, de maneira que as pessoas que se agarravam à popa foram erguidas nada menos do que novecentos metros no ar antes de imergir no abismo. Isso me provocou uma sensação de frio na barriga que sinto até hoje. Nada na guerra jamais me provocou esse tipo de sensação.

Da eclosão da guerra, guardo três lembranças vívidas que, por serem banais e irrelevantes, estão livres da influência de tudo o que ocorreu mais tarde. Uma é a do cartum do "Imperador alemão" (acho que o abominado nome "kaiser" só se popularizou pouco depois), publicado nos últimos dias de julho. As pessoas ficaram um tanto chocadas com essa caçoada da realeza ("Mas é um homem muito elegante, ora se é!"), embora estivéssemos à beira da guerra. Outra é a da época em que o Exército requisitou todos os cavalos de nossa cidadezinha interiorana e um taxista se desfez em lágrimas na feira livre quando lhe tomaram o cavalo, que trabalhara para ele anos a fio. E outra é a de um grupo de rapazes na estação ferroviária disputando os jornais da tarde que haviam acabado de chegar no trem de Londres. E me recordo das pilhas de jornais verde-claros (alguns ainda eram verdes naqueles dias), das golas altas, das calças justas e dos chapéus-coco bem mais do que me recordo dos nomes das terríveis batalhas que já estavam sendo travadas na fronteira francesa.

Dos anos intermediários da guerra, recordo-me principalmente dos ombros quadrados, das panturrilhas bojudas e das esporas tilintantes dos artilheiros, cujo uniforme eu preferia ao da infantaria. Quanto ao período final, se me pedirem para dizer com honestidade qual minha lembrança mais importante, devo simplesmente responder: margarina. É um caso ilustrativo do terrível egoísmo das crianças que, em 1917, a guerra quase tivesse deixado de nos afetar, exceto pelo estômago. Na biblioteca da escola um mapa enorme da Frente Ocidental estava pregado num cavalete, com um fio de seda vermelho esticado seguindo um ziguezague de percevejos. De vez em quando o fio era movido um centímetro para ali ou acolá, cada movimento representando uma pirâmide de cadáveres. Eu não prestava atenção. Estava numa escola de garotos acima do nível médio de inteligência e no entanto não me lembro de um único acontecimento importante da época que se nos apresentasse com seu verdadeiro significado. A Revolução Russa, por exemplo, não causou impressão, a não ser nos poucos cujos pais por acaso tinham dinheiro investido na Rússia. Entre os muito jovens, a reação pacifista se manifestara bem antes do fim da guerra. Ser negligente tanto quanto podíamos ousar ser nos desfiles da O.T.C. e não se interessar pela guerra era considerado um sinal de esclarecimento. Os jovens oficiais que retornaram, endurecidos pela terrível experiência e desgostosos com a atitude da geração mais nova, para quem a experiência nada significava, costumavam nos passar sermão por causa de nossa brandura. Claro que não conseguiam apresentar argumentos que fôssemos capazes de entender. Conseguiam apenas esbravejar que a guerra era "uma coisa boa", tornava-nos "duros", mantinha-nos "em forma", e assim por diante. Nós nos limitávamos a rir contidamente. Nosso pacifismo era caolho, típico de países protegidos por armadas fortes. Durante anos após a guerra, ter algum conhecimento de assuntos militares ou algum interesse neles, até mesmo saber de qual extremidade de uma arma o projétil sai, era suspeito em círculos "esclarecidos". A guerra de 1914-18 foi escrita ao correr da pena como uma chacina sem sentido, e até os homens chacinados de algum modo carregavam culpa. Ri muitas vezes ao pensar nos cartazes de recrutamento: "Papai, o que o senhor fez na Primeira Guerra Mundial?" (um menino faz essa pergunta ao pai envergonhado), e em todos os homens que devem ter sido atraídos pelo Exército só pelo cartaz e depois desdenhados pelos filhos por não terem sido Opositores Conscienciosos.

Mas os mortos, afinal, tiveram sua vingança. À medida que a guerra recuava no passado, minha geração específica, a dos "muito jovens", tornou-se consciente da vastidão da experiência que não teve. Nós nos sentíamos um pouco menos do que um homem por não a termos vivido. Passei os anos de 1922-27 em grande parte entre homens um pouco mais velhos do que eu que haviam participado da guerra. Eles falavam dela sem parar, com horror, é claro, mas também com uma nostalgia cada vez maior. Podemos ver essa nostalgia com bastante nitidez nos livros de guerra ingleses. Além disso, a reação pacifista foi apenas uma fase, e até os "muito jovens" haviam sido treinados para a guerra. A maioria da classe média inglesa é treinada para a guerra desde o berço, não tecnicamente, mas moralmente. O primeiro slogan político de que me lembro é: "Queremos oito (couraçados) e não vamos esperar." Aos sete anos, eu era membro da Liga Naval e usava um uniforme de marinheiro com "H.M.S. Invincible" gravado no gorro. Antes mesmo da escola secundária particular O.T.C., frequentei uma escola particular de cadetes. A partir dos dez anos, de vez em quando segurava um fuzil, preparando-me não só para a guerra, mas para um tipo especial de guerra, uma guerra em que as armas de fogo se erguem num orgasmo frenético de sons, na hora marcada saímos da trincheira, quebrando as unhas nos sacos de areia, damos passos falsos na lama e entramos na linha de fogo das metralhadoras. Estou convencido de que parte do motivo para o fascínio que a Guerra Civil Espanhola exerceu sobre as pessoas mais ou menos da minha idade foi que ela se assemelhava à Primeira Guerra Mundial. Em alguns momentos, Franco era capaz de juntar um número suficiente de aviões para elevar a guerra a um nível moderno, e esses momentos eram decisivos. Mas no mais era uma cópia ruim de 1914-18, uma guerra de posição de trincheiras, artilharia, ataques de surpresa, atiradores de elite, lama, arame farpado, piolhos e marasmo. No início de 1937, a parte dianteira de Aragão em que eu me encontrava devia ser bem parecida com um setor tranquilo na França em 1915. Só faltava a artilharia.