terça-feira, 1 de abril de 2008

Prejudice

Reconhecer o preconceito nosso de cada dia - eu tenho, tu tens, ele tem - é uma baita revelação, apenas por perceber esse sentimento como tal (e quem disse que isso é fácil?). Foi justamente o que não ocorreu em períodos de exceção do passado, em que a crueldade em grande escala e premeditada fugiu do controle. Institucionalizaram a aversão a determinados grupos, mirando seus alvos como um troço andante e falante aquém da condição de bicho nocivo, passível de ser tratado como um desperdício de espermatozóide, de oxigênio e de espaço, além de descartável como papel higiênico usado.

Sigo uma tática. Minhas idéias pré-fabricadas - não todas -, procuro deixá-las trancadas numa gaveta empoeirada de móvel largado em porão sombrio, ali perto do álbum de figurinhas do Jaspion. Gaveta essa que, quando dá vontade de abrir, emite um rangido brutal de filme de terror, dela escapam voando morcegos desorientados e saio correndo, explodindo de medo pueril e com uma descarga elétrica na coluna vertebral, desistindo de rever o que havia lá dentro.

Em outras ocasiões, imagino meus pré-juízos como flatos com essência de repolho. Podem ser engraçados ou constrangedores ao virem à tona. Ou ainda, como as músicas breguíssimas que adoramos, mas nunca assumimos isso em público (às vezes, escutando às escondidas). Confissãozinha à meia-luz: intolerância é um dos meus defeitos que mais admiro.

E vale prestar atenção nos melindrosos que enxergam preconceito em tudo. Se ouço rumores sobre sexismo em propaganda de cosmético, racismo na expressão "a situação tá preta" e personagem de novela das 7 que difama nordestinos, lamento, meu instinto é a desconfiança. É minha maneira de evitar o cacoete bobo mestiço de amor à 1ª vista e adesão de 5ª categoria a causas fajutas. Quaisquer causas, pensando  melhor. Vejo passeata ou dia comemorativo pela minoria (tsc, tsc) alfa ou beta e acho tão estúpido quanto as hostilidades a essas minorias (tsc, tsc [2]). São as faces opostas e bolorentas de uma fichinha do cassino dos panacas. Muito chata também essa hipersensibilidade - que não convence - surgida como reação à discriminação. Eu ria assistindo ao Didi apelidar Mussum de azulão da Mangueira, e o tição reagir xingando-o de Paraíba da cabeça de bater bife. E Jorge Lafond, a saudosa Vera Verão, "Eeeepa, bicha não! Eu sou uma quase... Naomi Campbell!"

Detesto  mesmo é a corja dos alemães. Ficaram de eliminar os judeus desgraçados e  fizeram um serviço de preto.

(aos delicados: calma, Cocada, que essa última foi só para descontrair; sou livre de qualquer preconceito, odeio todo mundo, indistintamente; e eu gostaria de ter inventado essa frase, mas ela é do beberrão W.C. Fields)