domingo, 28 de junho de 2009

Tratado da incorreção do intelecto

Imagino um intelectual que dançasse o moonwalk. Logo depois do aperto serelepe no saco, ele sai deslizando discósta e pisa a travessa dentada de um ancinho. Claro que o cabo imediatamente se ergue e bate com violência nele, provocando-lhe uma dor cavernosa ao longo da coluna vertebral.

Gostaria de ver um intelectual ser desmoralizado, num típico final de episódio do Scooby-Doo. A mente brilhante devidamente amarrada com embira, Fred Jones vem, arranca a máscara de monstro do antagonista e diz: "Pensou que engabelaria a todos com esse papo de dialética hegeliana com abordagem deleuziana epistemológica hermenêutica cisgênero digressonormativa pilombêutica aplicada à novela A Usurpadora, hein?", no que o vilão retruca: "E eu teria conseguido, se não fossem vocês!"

Se vocês tiverem o azar de comparecer a um evento voltado para o público intelectual - festa estranha com gente esquisita -, testemunharão que lástima. Na entrada do prédio construído com financiamento da SBPC em parceria com o CNPq, diante do tapete vermelho, do toldo e do porteiro de libré, surge um fuscão preto. De dentro do exíguo veículo, saem 15 intelectuais, com ternos de tweed, óculos remendados com esparadrapo, gravatas-borboleta, pagers à cintura, canetas muitas canetas, bottons do Circo Garcia, cachimbos de fazer bolhinha de sabão, línguas-de-sogra, sapatos enormes, narizes postiços que buzinam e suspensórios. Um desavisado cumprimenta um dos recém-chegados e recebe um choque de consideráveis amperes. Um outro aproxima-se do Prof. Intélio, para elogiar-lhe a orquídea na lapela, e é atingido no olho esquerdo por uma rajada de soda cáustica. Quanto riso, quanta alegria, mais de mil intelectuais no salão. Arremesso de tortas, corrida de monociclos, girafinhas de bexiga, campeonato de pogo stick, revólveres que disparam uma bandeirinha na qual se lê **Bang!**. Um geômetra está tranqüilamente sorvendo um copo de suco de laranja e de repente nota uma aranha de plástico em um cubinho de gelo. Perto de uma suntuosa mesa de iguarias, ouve-se um "É pavê ou pacumê?". Uma orquestra executa, a sangue frio, sucessos de John Cage.

A seleção mirim de intelectuaizinhos, além de colecionar selos raros e brindes de Kinder Ovo, sofre bullying no colégio. Os que sobrevivem e não superam os traumas tornam-se franco-atiradores problemáticos ou vocalistas de bandas tipo Tediohead e Loser Manos.

Intelectuais apresentam programas soníferos e pretensamente descolados na TV Cultura, e cuja audiência é representada por um traço na aferição do IBOPE. Embora eu desconfie que o blog aqui, em termos de platéia, esteja na mesma situação.

Intelectuais adoram palpitar sobre filosofia, pintura, escultura, arquitetura, literatura, partitura, saracura e saravá, curupira e Carajás. Lembrem-se da clássica frase do ramo publicitário: "Não requer prática, tampouco habilidade."

Intelectuais mostrando sua biblioteca - os 10 mil volumes atrás dos quais eles tentam esconder a burrice e a insegurança - em casa para as visitas são iguais 1) aos adolescentes aloprados disputando quem tem o ding-a-ling maior; 2) ao povo de Orkut com fotos exibindo bíceps, tríceps e às vezes - os mais depravados - até fórceps.

Intelectuais, maçantes e previsíveis que são, vão falar que provavelmente a mulher do sujeito corneou-o com um(a) fã de Jacques Derrida, o que explicaria a suposta birra contra a categoria.

Quando intelectuais iniciam a costumeira torrente, análise de letra do Arrigo Barnabé, Museu Guggenhein, Bienal do Vazio, discotecagem acompanhada de declamação de T.S. Eliot, Escola de Frankfurt, teatro antiteatro de Beckett, fluxo de consciência, desconstrução, estética da incomunicabilidade e performance de nudez conceitual, é hora de tomar medidas drásticas.

Intelectuais são tão tapados e cabeça-de-macaúba que não sabem a diferença entre uma sátira e um lactobacilo vivo.

domingo, 31 de maio de 2009

Topônimos

Albânia - Nome de diretora de escola pública

Andorra - Marca de cigarro

Angola - Marca de cerveja

Azerbaijão - Marca de arroz

Armênia - Nome da tia da novela das 8 que costura para fora

Bahamas - Nome de cassino

Belarus - Nome de transportadora

Belize - Nome do produto de cabelo predileto de suburbanas

Benin - Apelido de tio solteiro

Botsuana - Nome de intoxicação alimentar causada por bactéria

Brunei - Nome de loja de móveis wannabe-chique à beira da falência

Burkina Faso - Nome de ditador africano

Burundi - Nome de estádio ou de entidade de macumba

Butão - Nome de mosquito da região norte do Brasil

Cabo Verde - Nome de produto de limpeza

Cazaquistão - Nome de favela

Chipre - Marca de perfume de catálogo da Hermes

Congo - Nome de instrumento de percussão

Croácia - Nome da parte final do aparelho digestivo de répteis

Djibuti - Gíria de surfista

Dominica - Nome de anciã viúva

El Salvador - Nome de igreja evangélica de periferia

Equador - Marca de relógio

Eritréia - Nome de parte do sistema respiratório

Eslováquia - Nome de osso do corpo humano

Fiji - Nome de banco

Gana - Marca de papel higiênico

Guiné - Apelido carinhoso que trabalhador de fábrica põe na esposa

Holanda - Marca de pano de prato

Honduras - Nome de doença de pele

Hungria - Nome de estado de debilidade provocado por consumo excessivo de álcool

Iêmen - Nome que pai pobre põe na filha querendo soar sofisticado

Inguchétia - Interjeição cearense

Irã - Nome de índio

Israel - Nome de crente

Jordânia - Nome de jogadora de vôlei

Kosovo - Nome de excêntrica distribuição Linux

Laos - Nome de personagem de filme de luta

Lesoto - Marca de óleo de cozinha

Líbano - Elemento da Tabela Periódica

Líbia - Nome de síndica

Luxemburgo - Nome de rede de hotéis

Maldivas - Nome de gangue do bairro Antônio Bezerra

Mali - Marca de palito de dente

Marrocos - Nome de time de futebol da 3ª divisão

Mauritânia - Nome de menina que tem 11 irmãos

Mônaco - Nome de carro esportivo

Namíbia - Nome de distúrbio psicológico

Nicarágua - Nome de companhia que trabalha com recursos hídricos

Panamá - Marca de roupa vendida no Beco da Poeira

Papua Nova Guiné - Nome de vencedor da corrida São Silvestre

Polônia - Nome de planta ornamental

Ruanda - Nome de empresa de ônibus

San Marino - Nome de participante de Big Brother

São Cristóvão e Névis - Sobrenome de emergente que conquistou grana no ramo de bijuteria

São Tomé e Príncipe - Nome de escola de samba

Senegal - Nome de vocalista de banda de axé

Singapura - Nome de mercado

Somália - Nome de comércio popular de roupas da rua Senador Pompeu

Sudão - Gíria de funkeiro carioca

Suriname - Marca de mortadela

Tanzânia - Nome de reserva florestal

Togo - Gíria para "ânus"

Tonga - Apelido de traficante

Trinidad e Tobago - Nome de dupla sertaneja de Goiás

Tunísia - Nome de tia do interior

Tuvalu - Nome de rio poluído

Uganda - Nome de filha de antropólogo/sociólogo

Uzbequistão - Nome de paranormal que realiza curas milagrosas em programas de auditório

Vanuatu - Nome de mamífero comestível da zona rural

quinta-feira, 30 de abril de 2009

One Nation Under A Groove

AGNALDO TIMÓTEO
Primeiro galã afroderivado nacional. Na novela O Direito De Abortar, da TV Tupã, destacou-se no papel de Jesus Negão Camarada Sangue Bão, amante da personagem Mamãe Dolores. Atual embaixador do Brasil no Virundunistão.

ALEXANDRE PIRES
Ele que nos anos 90 dava umas lapadas na barata da vizinha. O chato torrencial lacrimejava a cântaros no encontro com Bush Jr. Como bom tupinambá, na falta de uma amásia ou de uma filha, ofereceu ao colonizador sua decrépita vovó em agradecimento à acolhida.

BARACK OBAMA
Lembrando que o Hussein não é coisa nossa.

BENEDITA DA SILVA
Na vigência da ditabranda, a dita cuja Benedita, acusada de atos contra a segurança da pátria, foi torturada com choques elétricos. Isso explica o cabelo radical e a generosa pensão vitalícia. Casada com frei Betto Jamaica. Musa do Caçarola.

CARTOLA
Ilusionista. Assistiu a palestras do Mr. M e fez cursos com Harry Houdini. Aluno relapso, não acertava nem a do baralho e a do coelho, daí seu apelido. Sobreviveu mesmo foi com placa de COMPRO OURO. Sua única investida na área musical foi um fracasso, a crítica pisoteou suas marchinhas de duplo sentido do naipe de Quero ver se Cuba lança. Não conseguiu ser aceito no Retiro dos Artistas.

CELSO PITTA
Em parceria com Morgan Freeman, Robert Mugabe, Kofi Annan, Neguinho da Beija-Flor & Lassie Brandão, fundou a ONG Projeto Pinga Pura, com o objetivo de preservar o Túmulo do Samba. Posteriormente, arriscou-se na carreira. Vacilou em um flagrante, foi preso e amargou uma condenação. Anos depois, arriscou-se em outra carreira, a política, concorrendo em uma acirrada eleição para prefeito de Sumpaulo, tendo como principal rival um apresentador da TV. Venceu no 2° turno, coladinho com o Gugu. Envolveu-se em um escândalo de peculato que recebeu da imprensa a sugestiva alcunha de O Caso dos Dez Negrinhos.

CRUZ E SOUSA
Marketeiro da empresa Souza Cruz, realizador da clássica campanha Cigarro, O Fogo Amigo. Também rabiscava uns versinhos. Dizem os supostos experts que o cara era bom. Quando morreu, seu cadáver foi transportado de trem em um vagão para animais.

ELZA SOARES
Mulher do cambaio Garrincha. Foi dubladora da Agnes do seriado A Gata & O Rato e da Laurinha do desenho dos Ursinhos Carinhosos. Inspirou o filme Elza [sic] - She Wolf Of The SS. Conhecida em seu bairro pelo celular cujo ringtone é o tema de A Escrava Isaura.

GILBERTO GIL
Aquele preto que você-sabe-quem gosta. Criador da vanguarda literária batizada de Concretismo Monossilábico Macumbólico. Doutorou-se pela Universidade do Acarajé com a tese de que o Haiti não era aqui. Pessoa nefasta (ir)responsável pela existência da Preta Gil, a nêga maluca do Expresso 666. Foi ministro das Minas e Energia do 1° governo Mula, mas abandonou o cargo alegando "Ando Meio Desligado".

GLÓRIA MARIA
Nasceu na palhoça de uma comunidade de encolhedores de pescoço do Centro-Oeste e foi amamentada pela Mãe Preta do cerrado. Começou no jornalismo hardcore do Documento Especial. São antológicas suas reportagens sobre moradores de rua, jogo do bicho, corrupção policial e gangues urbanas. Além de suas clássicas entrevistas com o bigodudo Freddy Krueger e o mestre-de-obras Jean-Claude Andaime. Musa de Rogério Skylab.

JOSÉ DO PATROCÍNIO
Viveu anos sob a tutela do fazendeiro reaça Clóvis Bornéu. Carateca, baixista e hit maker da gravadora Motown, condutor de riquixá, remendador de asfalto, tocador de apito na charanga do maestro Zezinho, bluesman coletor de algodão, pizzaiolo italiano, padeiro lusitano, vendedor de picolé, japonês prodígio da matemática, toureiro espanhol, sapateador, guarda-costas, alemão cervejeiro, garçom mexicano do Starbucks, judeu causador da Peste Negra, flautista dos Andes, gondoleiro veneziano de camisa listrada, abissínio nos filmes do marujo Simbad, pianista cego, Saci, 1 vez deputado, isso para citar apenas algumas ocupações. Criador da Lei Rouanet.

KID BENGALA
Nascido em Itu (SP), em 1969. Extenso, assaz extenso, currículo atuando em comédias românticas. É considerado o Hugh Grant brasileiro e marrom.

MANO BROWN
Começou a trampar animando festinha de criança fantasiado de Mr. Hanky. Daí veio a idéia para seu nome de guerra. Formado na escola da vida e fundador da escola de samba Acadêmicos Racionais Suplicys. Medalha de Prata como Musa dos Presidiários, atrás (ops) apenas de Rita Cadillac.

MARILENE FELINTO
Ex-figurante do The Cosby Show. Formou-se em jornalismo pela Faculdade Foxtrote. Com ambição de ser o Montaigne da língua portuguesa, publicou em 2002 uma trilogia de ensaios: 1) Ouça seu amigo: farinha só de trigo, sobre a questão das drogas; 2) Ohio que o parta, sobre sua temporada estadunidense e 3) Etnocídio & cabelo com chapinha, sobre a miscigenação.

MARTINHO DA VILA
Ilustre compositor de músicas para as cinebiografias de celebridades como Rubens Barrichello ("É devagar/É devagar/Devagarinho") e Maria Bethânia ("Já tive mulheres"). Lançou discos com curiosos títulos: Memórias De Um Sargento De Milícias, Rosa Do Povo e Meu Laiáraiá.

MC SERGINHO
Maurits Cornelis Serginho propôs a lei do ventre livre nos bailes funk-fuck da Cidade Magavilhosa. Aproveitando o ensejo, vieram as leis do busto livre, das ancas livres e do púbis livre. Um abnegado legislador.

MILTON SANTOS
O que sei é que há uma praça Milton Santos lá no Campus do Pici, no departamento de Geografia, onde o indecente corpo discente, cheio de charme e com um desejo enorme de revolucionar, combina encontros de alcoólicos nada anônimos (congressos). Deve ter sido um zelador que marcou época. Mentira. Foi o irmão mais velho do Lulu Santos. Autor de um livro famoso, Problemática Da Fome, cujo subtítulo era Faminto do jeito que eu tô, eu como uma onda no mar.

MULATA GLOBELEZA
Modelo e atriz atroz. Nos anos dourados, dançou o Watusi e o Pata Pata. Adepta e divulgadora do nudismo na tela da TV e no meio desse povo. Para variar, o tempo passou e ela engordou, cultivou varizes e restringiu-se à profissão de esposa do ícone da computação gráfica, o branquelo Hans Hitler, incensado por elaborar animações parecidas com as que eu aos 13 de idade fazia no 3D Studio. Não é um elogio.

MUSSUM
Um dos maiores comediantes do país. Em 1993, foi indicado ao prêmio Nobel da Paz por suportar durante tantos anos de trabalho os irmãos siameses Renato & Jorge Aragão. Tocava bandolim n'Os Fakes do Samba. Foi capa da Forbes por conquistar uma fortuna vendendo solos de cavaquinho para trilha sonora de comercial de material de construção.

MV BILL
Capoeirista, eletricista e ativista político nas horas vagas. Na infância, ganhou uns merréis fazendo malabares e globo da morte em sinais de trânsito no Hell de Janeiro. Teve uma aparição-relâmpago em Preta Portê, filme-símbolo da retomada do cinema nacional.

NEGRA LI
Sobrinha do astro das artes marciais Bruce Li. É citada no Livro Guiness de Recordes como detentora da maior coleção de camisas com foto do showman Nelson Banguela. É uma mutante híbrida de rapper e feminista. Criada pela Dra. Júlia de Caminhos Do Coração para disputar com Caminho Das Índias qual ficção é a mais desencaminhada da trilha do bom senso.

NEGRINHO DO PASTOREIO
Genuíno descendente de quilombola rebola bola bora ver no que vai dar. Já fez de tudo nesse mundão sem porteira. Desde dupla sertaneja com Sérgio Reis e par romântico com Maria Joaquina Villaseñor até cobaia da indústria farmacêutica em testes de laxantes, ofício no qual sujava na entrada e na saída.

PELÉ
O cosmonauta batia um bolão, entende? Não tem parentesco com Cruz e Sousa, mas calado é um poeta (Romário dixit). Aposentado, só quer saber de curtir a família enfeitada de bastardos. Uma netinha sua, Afro-dite Marley do Nascimento, paraibana, usa corte de cabelo militar e ouve seguidas vezes I Kissed A Girl, da Katy Perry. Tem um netinho fortalezense fã de RuPaul, Tony Torrado do Nascimento, que adora andar fantasiado de Sailor Moon na Praça Portugal e requebrar ao som de Rihanna.

PIXINGUINHA
Botânico intensamente celebrado pela comunidade científica flower black power Internacional. Tudo por causa de seu único livro, em que demonstrava o estarrecedor fato de que As Rosas Não Falam. Surgiram acusações de plágio. Também esportista incompreendido, participou pagando raquete de edições da Copa Angela Davis. Morreu cedo, devorado por uma dionéia gigante.

VICENTINHO
Rodou os 26 estados e em perene estado de déficit com a trupe Os 3 Patetas. Tratava-se de um espetáculo mais besta que a Terça Insana e cujos protagonistas eram ele, Paulinho da Força Sindical e a andróide Maria de Metropolis. Teve um fim melancólico, como decadente cover do vocalista do grupo de emo-pagode Roça Negra. Cometeu suicídio no camarim. Seu epitáfio: Que pena, amor.

ZUMBI DOS PALMARES
Prestigiado mercador de escravos e proprietário de parques temáticos, inclusive do saudoso Kylomboyola, voltado para o público GLS e que foi à falência após um escândalo envolvendo uma misteriosa morte no Tobogã Bondage. Foi visto pela última vez participando do videoclipe de Thriller, do cantor Michael Neverland Jackson.

domingo, 29 de março de 2009

Clube dos Canalhas

Pertenço a um seleto círculo vicioso de colegas de longa data. Nosso principal elo, a antipatia. Um ódio que ousa dizer o nome. Hostilizamo-nos tanto e reciprocamente, e declaradamente, vocês precisam ver. Que beleza essa vileza. Prezamos bastante nossas ligações perigosas e copiosas disparidades. E que tédio os grupelhos amigows-4-eva, aqueles do troca-troca patológico de depoimentos fofuxos e enjoativamente encomiásticos no Orkut, com opiniões 99% em concórdia no que se trata de questões imbecis, com as mesmas preferências pelas mesmas festas ridículas, pelas mesmas expressões de efeito jumentosas ("Solteiro sim, sozinho nunca!"), pelo mesmo tipo de relacionamento amoroso decadente e sem futuro, pelas mesmas músicas o cão chupando manga de ruins, pelo mesmo figurino descolado da Galeria Pedro Jorge e pelas fotos com uns apontando para os outros ou fazendo uma estrelinha com os dedos.

Conosco, da panelinha dos Amigos da Onça, o esquema é assim: discordamos em quase tudo que é assunto. Existem rumores de que sequer a adesão à heterossexualidade seja unânime; zoamos o goiaba que é entusiasta de Laura Pausini e de Roxette; mangamos do ogro que compareceu à prova de Cálculo I devidamente paramentado de visão do inferno, com abadá do Sirigüella, bermuda florida e sapatênis; houve o curioso caso do sujeito que roubou a namorada alheia; criamos um anedotário cruel com o que sofreu um coma alcoólico em um evento de axé music; mandávamos uma vaia bem cearense no tal que guiava um fusca amarelo-hepatite; lembro o que se apresentou um dia com uma barba, ahn, estilosa e teve que aturar o infame apelido de Paloccinho por um largo tempo; fomentamos confrontos verbais e corporais entre os são-paulinos e os palmeirenses, entre os boêmios e os abstêmios; julgamos pela aparência; ao nos enfrentarmos no Marvel VS. Capcom, nossas taxas de mútuo rancor ultrapassavam o nível recomendado pela OMS; não respeitamos crença, etnia, posição política e nome de mamãe; já negamos ajuda num momento de adversidade e aproveitando a ocasião ainda proferimos um folgado Amigo é pr'essas coisas; há um de nós que é deficiente físico, ele é engraçado, venenoso e, ao esboçar esforços de comunicação, fica a cara do Tonho da Lua; um começou ser vitimado pela calvície, e aí foi gozação com artilharia pesada por todos os flancos; nunca saímos juntos para uma farra; apreciamos conversar: mulheres vintage, saldo de gols, dicas de sobrevivência para idas a banheiros de rodoviária, motores de Porsche, exame de próstata (quem é da nossa gangue também tem medo), sitcoms, agarramentos às escuras em reality shows. Nesses colóquios, a mera insinuação a citações literárias - ou à nova e sofisticada e transgressora (?) série da TV Globo baseada em livro famoso - é considerada crime de lesa-pauta, cuja punição é o uso, durante 10 minutos, da máscara de ferro com a parte interna recheada com formigas tocandira e besouros da doença de Chagas. Estamos mais para witty que para pretty. E nada de foro privilegiado. O galhofeiro de hoje pode ser a iraniana apedrejada de amanhã. Obviamente, nutrimos abissal e gélido desprezo por todas as outras tchurminhas. Só nossa patota é que detém a Verdade Suprema, infiéis. E não se aproximem muito de, nem ofereçam amendoins aos que falam com freqüência e, pior, com seriedade, a gíria "tribo".

Em vez de sinceridade, descaramento. Em vez de bate-assopra, bate-rebate. Em vez de humor, canalhice. É o Clube dos Canalhas. Não temos a elegância do Rotary, nem o bom-mocismo dos escoteiros, nem a mística dos maçons, nem a coesão ideológica de fãs do High School Musical. Somos feios, sujos e malvados, como no filme do Ettore Scola. Igual a eles, já arquitetamos o assassinato de um de nós. Sem ironia, é uma companhia inestimável aquela escumalha peçonhenta, da qual eu tanto gosto desgostando. Uma cordialidade de serpentes do doutor Vital Brazil. Não é vetada a participação feminina. As poucas, porém, que tentaram filiação suportaram o clima sulfúrico e ofídico da camorra apenas por um escasso período. Magoadas, voltaram correndo para casa e trancafiaram-se no quarto de paredes cor-de-rosa para permanecer enrodilhadas na cama e encharcando de lágrimas o travesseiro com rosto de Garfield. Foi mal. É difícil uma Mae West para chamar de nossa? Prometo um ambiente tão acolhedor quanto o ventre da minha lavadora de roupas funcionando em modo turbo.

Nossa maior contribuição à humanidade foi o Incrível Catálogo De Frases Para Perder Amigos De Baixo Pedigree. "Você acha que os que ingressarem via sistema de cotas vão borrar na calourada ou no jubilamento?", "Obama é péssimo e parece presidente de 3° Mundo.", "Os grã-finos daqui não sabem domesticar o Seu Creysson que têm na alma.", "Sou a favor de que dêem terra para invasores do MST. Sete palmos." e "Planejamento familiar de pobre é tomar Cytotec ou chá de zabumba no segundo mês de gestação."

Arremessem no basculante os cantores com voz impecável e boné de bocó, embrulhados em suas canções da América com letras sobre amizade que rivalizariam com paródia das Chiquititas. Comparsas legítimos assemelham-se ao time Toguro, não ao elenco de Malhação. Quando o primeiro da nossa quadrilha de sádicos expirar, combinamos que na cerimônia de esbulho, ops, de despedida, apesar de eventuais protestos e imprecações que venham de dentro do caixão, os remanescentes entoaremos, à guisa de homenagem, o seguinte trecho de um dos rocks da banda Matanza:

De tudo isso
Resta o ódio como herança
Nada de esperança
Só mais uma história
E que não acaba aqui

sábado, 28 de fevereiro de 2009

Telúrico

No início do ano, a prefeita, sob o signo do constrangimento, tomou posse sem a presença de seu vice. Eles estavam em desavença. Imaginem. O sujeito fazendo beicinho e caprichando na expressão de magoei. Acredito que isso pertença à tradição que inclui nomeação de cavalo para o Senado de Roma e congressistas sul-coreanos trocando socos no parlamento. Foi nossa modesta contribuição ao eclético anedotário. No Ceará é assim.

Não é o caso de eu encarar Fortaleza em plena canícula do meio-dia e bradar "Basta, cidadezinha. Esse hemisfério é pequeno demais para nós dois. Bang!" Seria uma bobagem.

Sei que há o charme oscarwildeano de quem investe na gaiatice depreciativa e sarcástica. Mas hoje não, obrigado. Não bancar o cronista da raiva contra o local em que se nasce. Partindo do pressuposto de que não seja exercício de sátira ou de provocação, é uma raiva que se leva excessivamente a sério, que se ressente de não ser, e pela convicção de que jamais será, amor. De nada encontrar em seu torrão de origem que desperte um amor capaz de suplantar o asco pelo que é vício nativo. Ao colunista Mainardi, velho palhaço, aquele abraço.

O desafio cotidiano de não deixar emergir minha porção Falling Down ao ver um Del Rey com adesivo "RASTREADO POR FOFOQUEIROS", candangos me convidando para ir ao Ceará Music ou ao Fortal, reportagens mostrando crianças feiosas do interior almoçando mandacaru, topetes à Chimbinha da Banda Calypso (eles que provam como o Norte não é apenas malária e canibais) e discussões sobre literatura regionalista.

Não tropeçar ao ensaiar ginga de equilibrista no canteiro central abarrotado de lixo em frente ao Shopping Benfica, para não ser atropelado enquanto espero o sinal abrir para os pedestres. De segunda a sexta, quando volto para casa à noite.

Testar a paciência de Jó. Diante de um batalhão de repentistas recitando Nordeste Independente, da voz do Fagner (Fag: nome é destino) ou da Samantha Marques, de sobralenses bravateiros (redundante?) comentando a experiência do Dr. Einstein, de flagelados grunhindo nóis sofre, de forrozeiros encharcados de Ypióca e gasguitando cultura da gente ou alevanta as mãozinha, de políticos que falam assoviando, de competições de quadrilhas de São João, de entrevistas com o Zé Genoino, de zoada de mobilete ou de Jangadeiro FM às 2 da madrugada, de pedintes tocando sanfona ou pandeiro.

Permanecer nas CNTP ao pensar na existência de determinados bairros. Desses bairros é que saem bandas de pagode chamadas Prabalá, Kilenhada ou Kebraê. Desses cafundós que vem aquela saraivada de pedras nos trens. Nesses buracos é possível ouvir, às toneladas de watts, Beto Barbosa, Pinduca, As Marcianas, Carlos Rilmar, Dedim Gouveia e Zezo dos Teclados. É desse chão que brotam as obesitas com topzinho rosa e shortinho de lycra e comendo pipocas amanteigadas + xilitos sabor torresmo ou arremessando sabugos de milho roídos até o derradeiro grão pela janela do ônibus em movimento. Nesses becos que surgem grupos de rap mamãe-quero-ser-do-Compton admirados pelos cheiradores & pitboys moradores do Dionísio Torres. Por essas vielas transita aquele pessoal, com camiseta de Aviões do Forró ou da Pitty, que forma as quilométricas filas para pleitear isenção da taxa de inscrição do vestibular da UFC. É de lá que vêm candidatos a vereador da estirpe do Praxedes da banquinha de churrasco. Nessas áreas residem os PMs de baixa patente que aparecem nos tablóides policiais da TV relinchando "diuturnamente", "positivo", "lograr êxito", "o mesmo evadiu-se". Esses redutos que são infestados de seres de menor idade brincando de bila, soltando raia com cerol, pulando elástico, rebolando com bambolês ou gazeando aula para ir à LAN house. É lá também que começa a carreira das mulheres-fruta, gordinhas com cara de favelada que toma banho de sol na laje ouvindo KLB e se lambuzando, via palito de picolé, com bronzeador caseiro estocado em pote de maionese.

Os ricaços e seu rosário de besteiras tornadas solenes pelo cifrão. Levando pela Praia do Futuro caríssimos chihuahuas encoleirados que parecem sobreviventes de barroada ou de incêndio. Comparecendo em peso ao vernissage de artistas péssimos, os cavalheiros de colete de camurça recomendando um balé indígena a que assistiram no Theatro José de Alencar, as damas trajando tafetá e debatendo as dicas de livros feministas que viram no Saia Justa de ontem. Glamour arretado. O rude e influente Barão do Crime, de infância no cortiço, reservando uma mesa no elegante Famiglia Giuliano, para desespero dos habitués descendentes de industriais e de joalheiros, que engolem calados a afronta e engasgam-se com ravioli. Realizando megafesta de 15 anos em que o Dado Dolabella é contratado para dançar com a monstrinho debutante ao som de Mariah Carey ou de Wanessa Camargo. Descrevendo a viagem a Miami, balneário oficial dos milionários kitsch. Enveredando pela pilantr, ops, filantropia, cada doação é um flash. Confiram a lastimável pronúncia deles no programa do Walney Haidar.

Não tecer insinuações ao ataque dos super-vilões no Banco Central, a guerra de gangues, a matadores oriundos de Jaguaribe, a trombadinhas do calçadão da Beira-Mar. Prefiro celebrar a memória do clássico diálogo do Chapolin:

- Veja, as Pirâmides do Egito.
- Veja, o Colosso do Ceará.

Ri do recente impasse entre o governador e o Fernando Carvalho, professor lá da Computação, sobre a paternidade de um projeto, egos mais inchados que cururu no brejo.

Ao ler os textos apócrifos na internet com as tradicionais Pérolas do Enem, recordo-me de Patativa do Assaré. Fama por escrever errado.

Às vezes percebo-me simpatizando até com os robozinhos dos preparatórios ITA/IME e campeões em olimpíadas internacionais de matemática.

A decoração de Natal da fachada da Secretaria Regional I, simplicidade que fascinava o pirralho que fui. Bailes e tertúlias no Clube dos Diários ou no Náutico Atlético. Cafiaspirina e elixir paregórico na farmácia Oswaldo Cruz. Caldo de cana na Leão do Sul. Guerra de pipocas no Cine São Luiz. Fantasmas no Casarão do Português. Compras na Samasa, na Paraíso, na Arca da Aliança, no Romcy. Cochilo na rede. Vestuário do período Accioly. Harmonias de Alberto Nepomuceno. BEC dos peixinhos. A maresia e sua corrosão acelerada litoral afora. Prédios sepulcrais e suas luzes de pinball. Binóculos de rapina espreitam por trás de solitárias cortinas suburbanas. A melancolia dos pândegos no vácuo pós-êxtase da saída dos bordéis. Arriscadas acrobacias em evento na Base Aérea. Orson Welles no Mucuripe. Eu ia a shows na Biruta e passeava na Ponte dos Ingleses. Já contei que o Tiririca foi meu vizinho?

Entre a vanguarda do atraso e o sonho de ganhar na loteria, vamos seguindo. Cafona, hein? Procuremos executar o melhor com o parco e defasado kit de ferramentas que nos coube. Ainda que esse "melhor" seja motivo de piada para a ABNT e a ISO 9000. Não pioremos a situação. Tinha que sobrar um caipora para ser a raspa do tacho, o anão da hierarquia, contentar-se por encarnar o ciclope no reino de cegos, o astro das notas de rodapé. Parem de reclamar e voltem para o batente, magote de filho duma égua sem costume.

É perda de tempo traçar cotejos com Metrópole da Garoa, Big Apple, Ville-Lumière, Città Eterna. Ou mesmo com Irauçuba. Lilian Sem Calcinha Ramos com o Itamar Franco no sambódromo não é Marilyn Monroe cantando Happy Birthday para o John Kennedy. O bode Ioiô empalhado não é o touro de Wall Street. Cearense vaiando sol na Praça do Ferreira é tão patético quanto carioca aplaudindo crepúsculo. Deborah Soft = Cicciolina. Ruim-zianne Lins não é Rosa Luxemburgo. Não iremos nos desculpar por nosso estilo de vida. Somos o que somos. E vice-versa, acrescentaria o jogador de futebol da lenda urbana.

A terra é um lugar onde se vive, onde há que suportar visões, ruídos, odores. E não sou eu que digo. Só repito o aventureiro Conrad.

Visitem: http://fortalezanobre.blogspot.com.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Cidadão Demóstenes

Lá vai ele insistir na inglória lavoura. Pregar num deserto de idéias mais árido que uma tarde egípcia. O cidadão Demóstenes acostumou-se às reações a suas prédicas. Apupos, cacarejos, "Velho malucooooh", "Cai fora, imperialistaaaah".

Surgem objeções decorosas, porém não menos tolas. Não se passa um arco de 15 graus no relógio de sol sem que lhe apareça um chato, seja diplomata ou bodegueiro, que venha conversar, com a benevolência forçada de quem se dirige a um esclerosado vovô Simpson: "Demóstenes, meu caro, Atenas tem uma reputação a zelar! Você quer que hostilizemos assim um povo? Eles são excêntricos e de têmpera violenta, é verdade... Daí a vituperá-los de bárbaros... Suas propostas absolutamente não se coadunam à nossa fama de sofisticação, da qual quiçá até os selenitas e os klingons já tenham ouvido falar. Francamente, meu querido...!"

Caduco, obtuso, paranóico, intolerante, doido com mania de perseguição, brucutu, papangu, véi turrão e mula manca, alcunhas que brotam de boca em boca nos locais por onde ele transita. Rob Crusoé ilhado por suas opiniões.

Volta para casa sobrecarregado de conjecturas após a n-ésima sessão de Filípicas, fracasso de público e de crítica. No trajeto, muros poluídos por cartazes que dizem "Oráculo de Delfos trás [sic] a pessoa amada" ou "Quer emagrecer?". Pensa em seu prestígio de orador, que está indo por Egeu abaixo, além do alcance de exímios escafandristas. E é com hipóteses sombriamente aparentadas dessas que ele chega a seu lar, em um ponto elevado da região. É um excelente - $$$ - bairro, o dele, e a julgar pelo que silvam as áspides especialistas do mercado imobiliário, a valorização do metro quadrado vai de vento em popa.

Aboletado em uma cadeira de vime na varanda do 2° andar, ele tem uma privilegiada visão da pólis. "Triste é o tal de Sebastião Salgado!", imagina o prócer, "Por que ele não fotografa portentos como ESTE?" (tenta representar as maiúsculas com um teatral abrir de braços). Diante da grandiosa panorâmica, sua disposição melancólica persiste. É com lentes de preocupação que ele vê aquele amontoado de vida. Que inusitado, [um lugar] exalar tamanho vigor e ter raízes tão frágeis. Aflige-o um medo pueril de avistar, na lonjura, os cães rosnantes da Macedônia. Será ele um visionário, uma Cassandra? Ou um sujeito por demais amedrontado?

"Atentem para o que esses arruaceiros andam cometendo, e observem tudo isto aqui!" Sim, fato inconteste. Os Seus haviam construído Algo. E quão regozijante era sentir-se envolvido naquilo - cheio de virtudes e de defeitos -, na manutenção daquilo. Eles poderiam ter ficado indefinidamente a pular em galhos e a catar piolhos das peludas namoradas. Mas não. Desceram dos amieiros, trataram de endireitar a coluna e rumaram para o serviço pesado, a trabalhar, a erigir, a reformar, a guerrear. O receio de ver arruinado o produto do esforço ancestral contaminava-o com uma sensação ruim e misteriosa, uma nostalgia precoce, análoga à cinematográfica saudade do trenó Rosebud. Paradoxalmente, era espetacular reparar nos mínimos detalhes e ver que eram tributários da labuta de seus antepassados.

Inclusive os jovens vulgares que avacalham seus discursos. Atingiram a adolescência sem precisar enfrentar uma tradicional loteria na qual o azar significaria ser abatido aos 4 meses de idade em um rito de infanticídio para amenizar o mau humor de uma divindade depravada. Seu filho, que estuda Engenharia Bélica em um instituto militar de Esparta (a Esparta da extremamente severa injunção de lançar bebês ineptos do alto de um desfiladeiro), graças a Zeus já saiu da fase punhe-teen. Uma vez, flagrou o maroto no quarto de banhos com uma dessas publicações eivadas de mulheres desnudas equilibradas em sandálias com salto de acrílico. Limitou-se a retirar-se do recinto. Por trás - sem trocadilho - da revista licenciosa havia uma editora. Uma empresa igual a tantas, com CNPJ e uma sede no Centro. E o que comentar das garotas sem talento e com suas alentadas nádegas expostas nas páginas? Provavelmente, distribuem autógrafos para filas de atrasados mentais. Elas não foram jogadas em um buraco para ser mortas a pedradas, como punição por conduta desavergonhada (cenas do pesadelo que ele teve em uma incômoda madrugada). O porteiro estrangeiro que fala "seje" e "menas". Um homem que nunca fez de seus frugais recursos motivo para rebelar-se. Ele resigna-se, melhor que uns com título de doutor, com o que a estrutura reserva aos que falam "seje" e "menas". O lacaio gosta do nababesco apresentador de TV que também pronuncia enormidades, sabe que o showman é uma exceção. O apresentador, por sinal, está na capa da atual edição de um tablóide cretino e retardado dedicado a futricas concernentes a subcelebridades. Tal papel sujo circula livremente por aí. E se um imenso aparato de patrulha e de censura truculenta monopolizasse as decisões a respeito do que é ou não cretino, do que deve ou não sair do prelo para as bancas? Que infâmia! Lembrou-se de sua bela e confortável morada, de arquitetura primorosa, um indicativo de que sua família não era um bando de nômades sem eira nem beira condenados a bater perna pelo continente em surtos de pilhagem, matungos xucros ocupados unicamente em fuçar os cochos alheios. E a corja de artistas - a maioria, reles trocatintas, espancadores de lira ou versejadores de 5ª -, depressivos da geração Fluoxetina, que para o delírio de tietes exercem o ofício e hobby de projetar a causa de seus achaques afrescalhados no que vulgarmente chamam de sociedade decadente & conformista. Pois experimentem arremessá-los no coração da anarquia de alguma das nações cujo nome termina em -istão. Ei-los prestamente esquecidos de seu culpado espírito oprimido pelo usufruto de bem-estar elitista, e em permanente fuga de barata tonta, para não morrer por ninharias no meio de incessantes, cruéis e inúteis refregas tribais ou entre seitas ou entre facções políticas. E muito ainda citaria. Sua filha de férias em Canoa Quebrada, os aposentados praticando hidroginástica no SESI, os museus, as bibliotecas, as cariátides, a cafonice festiva dos jogos olímpicos.

A comparação com o que ocorrerá - afirmam que não é sensata sua certeza - deixa-o em condição de ridículo e abestalhado ufanismo. Orgulhando-se do restolho, do que minutos antes considerava lamentável nos modos da sua gente. No paroxismo de uma breguice épica, seria capaz de abraçar intratáveis nerds como Tales e Pitágoras, agradecendo-os por suas valiosas descobertas para a humanidade, bla bla bla. Gênios com qualidades ótimas de se elogiar e péssimas de se conviver. E outros aspectos da riqueza, que inexplicavelmente raros enxergam, ziguezaguearam pela atribulada mente do ilustre palrador ateniense. Apesar do predomínio do recente modismo filosófico que é a dúvida, encontra gáudio junto a uma convicção: ele e seus semelhantes, os de ontem e os de hoje (míopes, coitados), criaram e foram/são parte de Algo que definitivamente vale a pena conservar. Mas o pior há de prevalecer. Diagnostica que sua ansiedade é sintoma da iminente débâcle do mundo como ele o conhece.

Sente-se no direito de guardar a ínfima esperança de que os invasores botocudos tenham uma vaga intenção de preservar o que foi feito em sua requintada e cobiçada terra natal. Humilhante agarrar-se a um fiapo tão mirrado de fé no porvir. Partidários de não-agressão, colegas de Areópago, idiotas úteis de diferentes matizes, na hora da queda final iriam às ruas com um miniletreito à Las Vegas ao pescoço com a frase "COMPREENDEMOS VOCÊS" piscando em diversos idiomas. E os gângsteres futuros donos desse chão lidam com sutilezas? Ou com linguagem escrita? Veriam apenas mais dos nossos. Ergo, merecedores de terem a cabeça esmagada por uma clava sem a menor cerimônia. Esses senhores da oposição, por enquanto ilesos, são os que argumentam que "é só o jeito deles", "não há razão para alarmismo", "ajamos na defensiva, se for o caso".

Atina que sequer tem o consolo - agora, um luxo - de perguntar "Consumada a derrota, o que acontecerá?". Não se indaga a um pé-duro que corre a latir no encalço de uma veloz Brasília 79 o que ele faria se o calhambeque parasse. Porque era possível que eles fizessem: Nada. Ok, vão com o fito de aniquilar, depois escravizar a meia dúzia de sobreviventes. Entendido. Mas, e em substituição ao que existia e foi pulverizado, o que vão pôr? Nada. Um totalitarismo orwelliano lotado de suntuosas estátuas ao estilo Niyazov seria brando. Eles talvez simplesmente espezinhem a argamassa de suor e de sacrifício, façam churrascos profanos de tudo o que é mais estimado, confraternizem durante umas semanas entre as ruínas e... Partam, sem olhar para trás, em busca de outra aventura bucaneira. Ora bolas e cubos, e por acaso mencionaram reivindicação do quer que fosse? No máximo, os incivilizados ergueriam, à base de entulho, uma réplica do Coringa com a inscrição "Why so serious?". Uma homenagem a nihil, a nova ordem do dia. A brutalidade pela brutalidade, um fim em si. É espremido por inquietações que o ateniense intranqüilo acaba dormindo, de puro cansaço especulativo. Na varanda, sentado à cadeira de vime, a aragem soprando um hálito de sono.

EPÍLOGO: 2009, d.C. América Latina. Brasil. Ceará. Fortaleza. Benfica. Bar Pitombeira. Happy hour com membros do baixo clero do curso de História-UFC bebendo cerveja. Em contenda, professores prosti, ops, substitutos, broxas e mal remunerados, divergem de alunos do 2° semestre, andróginos usuários de Valium e fãs-leitores de Emir Sader, numa questão sobre personagens da Batalha de Queronéia e a posterior capitulação de Atenas à Macedônia. E sobre o suicídio do cidadão Demóstenes.

quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

Feliz Ano Novo

Adeus ano velho

Feliz ano novo

Que tudo se realize

No ano que vai nascer

Muito dinheiro no bolso

Saúde pra dar e vender

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