quarta-feira, 17 de outubro de 2012

domingo, 30 de setembro de 2012

Foguete fajuto

No Yuri, maior que a cintura de barril era a paixão por astronomia. Seu pai, um bancário terceirizado e mecânico diletante, batizara-o em homenagem ao célebre cosmonauta soviético. Ainda criança, construiu lunetas de cano PVC e revirou enciclopédias à cata de saber o que era zênite, solstício, periélio, equinócio. Ele morava na casa em frente à minha. Trabalhava em uma loja de eletrônicos no Centro, na rua Pedro Pereira. Os vizinhos nutriam por ele certa desconfiança. O rude taxista e a supersticiosa costureira provavelmente associavam "esses sujeitos que gostam de ciência" a vilões que elaboravam receitas de poções malignas e vivisseccionavam rãs na tábua de picotar legumes. Ele tinha uma namorada virtual de longa data (flertavam pelo ICQ, nunca se encontraram pessoalmente). Cheguei a perguntar a ele:

- De onde ela é? Áustria? Uruguai? Canadá? Tailândia?

Resposta:

- É ali da Maraponga.

Ele era um ingênuo e pacífico rechonchudo que vivia com a mente nas nuvens e muito além delas, nos extremos da Via Láctea, nos confins do universo, perto dos quasares e dos raios gama. Era fissurado nos registros tirados lá do alto por sondas; espirais e garranchos que representavam desmatamento na Amazônia, poluição no golfo do México, detritos da erupção de um vulcão javanês, furacões no oceano Índico, geleiras no Ártico. Ostentava no desktop do computador - um Athlon 64 2800+ - uma foto dele ao lado do famoso astrônomo Ronaldo Rogério de Freitas. Elegera para ringtone monofônico do celular o tema de Perdidos No Espaço - 3ª temporada. Em seu pulso esquerdo, destacava-se um relógio cheio de funções que parecia a cabine de um Boeing 747. Possuía um interessante currículo de turismo: Base da Barreira do Inferno, sede do INPE, observatório Gemini (Chile). Criava um cão fox terrier chamado Rigel.

Depois de vários testes de propulsão com garrafas PET, ele comprou pelo eBay, ao preço de 43,62 dólares, o kit de um foguete em miniatura:

- modelo E2X
- branco com detalhes em azul e vermelho
- 4 aletas
- de plástico e resina epóxi
- 110 cm de comprimento
- seção transversal: círculo com 100 mm de diâmetro
- 311,8 g
- altitude máxima: 46 m

Em um domingo qualquer, acordei decidido a gastar a manhã inteira assistindo ao Cartoon Network. Tocaram a campainha do portão e resmunguei, Ah, não. Fui atender, arrotando café e limpando migalhas de cuscuz da boca. Sem o menor prólogo, o lipidioso do Yuri agrediu-me com sua euforia:

- Vem ver, cara, já comecei a montar!

Pedi ao torradinho São Giordano Bruno que me desse paciência.

O Nº 567 era um domicílio acanhado. Uma sala, um corredor, um quarto, cozinha, banheiro, quintalzinho e fim. A desordem imperava. Chaves de fenda, alicate, multímetro, maçarico, tesoura, pinça, parafusos, resistores, disjuntores, capacitores, um prato inutilizado de antena parabólica, um cipoal de fios, carcaças de rádios e de ventiladores, revistas. Uma sucata, um lar. Fomos ao local em que ocorria o serviço. Nas paredes, que clamavam por uma pintura, resquícios de trilhas de cupins e pôsteres como se fossem band-aids numa pele maltratada. Passei os olhos pelas lombadas na estante metálica do recinto. Cosmos, O Guia Do Mochileiro Das Galáxias, Da Terra À Lua, Perry Rhodan, biografias: Omar Khayyam, Nicolau Copérnico, Wernher von Braun, Edwin Hubble, Sally Ride. Em seguida, mexi numa pilha de DVDs. Planeta Proibido, Futurama, Patrulha Estelar, Aelita, Apollo 13, Contato, Star Trek, Buck Rogers, Cassiopeia.

- E então, como está o processo? - indaguei, autoritário.

- Ih, acho que daqui a três minutos o micro-ondas apronta a pizza.

- Palhação.

Após empanturrar-se de catupiry, ele pôs mãos à obra.

Concluída a tarefa, o resultado ficou realmente bonito e vistoso. Um artefato para, na medida de suas limitações, desbravar os céus da nação. Mereceu um nome sugestivo: Caramuru. Um pequeno passo para o homem, etc etc.

A primeira complicação surgiu quando o capitão Y escolheu como área do experimento um campo de várzea na avenida Coronel Carvalho. O terreno era extenso, mas argumentei que era estúpido fazer isso numa região povoada. Teimoso que nem um mulá empacado, ele não quis me ouvir. A expectativa tornara-o irresponsável, temerário, exibicionista.

E assim foi. Encaixamos o brinquedo no suporte de lançamento. Afastamo-nos. Um clique no controle para acionar o cartucho de ignição, uma presilha no pavio, o qual queimou pela transmissão de uma corrente elétrica, detonou a carga de nitrato de potássio e tchuns, o danado rumou acima. E não é que funcionou? Sinceramente maravilhado, consegui apenas exclamar, em tom de paródia:

- Eppur si muove!

O entusiasmo duraria pouco. Em erros grosseiros de afobação, ele
exagerou no ângulo de inclinação do rojão e embrulhou inadequadamente o paraquedas, que falhou devido a um rompimento de cordas. O projétil perdeu altura até atingir e atravessar, com um baita estrondo, o telhado de um casebre. Corremos no rastro da fumaça. Arranjaríamos uma bela encrenca. Lembrei-me do episódio 117 do Pica-Pau, Foguete Fajuto (Rocket Racket).

E agora perdoem a narração atropelada. Foi nesse devoluto casebre, supostamente no aguardo de inquilinos e que atrevidamente arrombamos, que a polícia realizaria posteriormente uma apreensão, confiscando béqueres, pipetas, cadinhos, retorta, funis, tubos de ensaio, lamparina, 3 revólveres calibre 38 e um caderninho sebento repleto de dados comprometedores. Nosso incidente provocou a absurda descoberta de que operava no lugar, em esquema de improviso, um laboratório de combustíveis adulterados. Corta essa, reclama o incréu leitor. Eu próprio cogitei a existência de um Alquimista Superior, um velhinho eterno que se divertia arremessando ingredientes num alambique para produzir essas coincidências estapafúrdias.

Meu colega Flash Gordo teve o retrato estampado nos jornais. Preferi permanecer anônimo e fora da história. "Quadrilha desmascarada", anunciava uma manchete. E o caso piorou. Intimaram dois vereadores para prestar esclarecimentos. Telefones deles rabiscados no infame caderninho. O 1º, um membro do PMM, Partido dos Monarquistas Monetários. A 2ª, uma filiada do PGV, Partido dos Guevaristas Vigaristas. Foi época de discursos inflamáveis (ha) na Câmara Municipal. "Aleivosias contra minha reputação", "Vossa Senhoria é um larápio". A mulher acusada revoltou-se ao ganhar o apelido de Maria Gasolina.

Na noite em que aconteceu o desastre, eu dormia e estava mergulhado em um sonho estilo paraíso latino. De chapéu panamá, na beira de uma piscina, bebendo uma piña colada, acendendo um Cohiba e abraçado pela Sofia Vergara e pela Shakira. Em um tablado próximo, um conjunto musical animava os pés de valsa com a estranha porque dançante melancolia de Mi Desengaño. O cantor, dono de um frondoso bigode tropical, esmerava-se neste trecho:

Es cierto se debe admitir
El mundo esta lleno de maldad


De repente, incas venusianos invadiram o cenário e dispararam seu armamento alienígena nos meus convidados. Os tiros soaram realistas demais. Espera aí. Eram reais. Despertei com uma sacudida violenta sob o lençol na cama. Uma fuzilaria desgraçada tendo como alvo o cafofo do nerd pança. A gangue dos hidrocarbonetos, os bandidos da octanagem. Um ataque drive-by. Esses ratos sempre se vingam. Se ele cochilava no sofá da sala, era adeus. Despachado para o limbo sideral. Enfim poeira cósmica. O Jeep Cherokee Sport preto de placa fria dos meliantes cantou pneu em fuga desembestada e sumiu nas trevas. Peneiraram de balas a fachada. Uma multidão de curiosos pisava as cápsulas deflagradas de Uzi, de pistola Ruger e SIG Sauer, de Tec-9. No quintal, o Rigel latia com ferocidade inaudita. Calma, gente, vou ligar para o celular dele, arrisquei. Do outro lado da linha, veio um barulho de show de rock progressivo e um Alô?. Jamais pensei que me sentiria aliviado ao escutar aquela voz irritante.

Parentes vieram recolher pertences dele. Nunca mais o vi. Dizem que se escafedeu às pressas para a Guiana Francesa; num helicóptero tipo AS350, o "esquilo"; teve que aturar na viagem o piloto amapaense que contava piadas sobre voo com excesso de peso.



* para mais informações sobre lançamento de foguetes em miniatura, vale a pena uma visita:
- Apogee Rockets
- Estes Rockets

sábado, 1 de setembro de 2012

Slan Agus Beannacht

Martin McGuinness era uma espécie de leprechaun rebelado. Um dos principais corações e mentes por trás do IRA, grupo que empreendia luta armada pela independência da Irlanda do Norte. Exército Republicano Irlandês: pensem nas jaquetas camufladas, nos rostos ocultos por passa-montanhas, na bandeira tricolor com a gravura do punho cerrado. Mais uma entidade saída do caldeirão de legítimos anseios por autonomia que degringolaram em excrescências como a FLN argelina e a OLP de Arafat. Pois foi lá na terra do Thin Lizzy que o jovem Martin e seu bando, em meio a pints de cerveja Murphy's, decidiram combater o domínio britânico, adotando como instrumentos a panfletagem, a pistola Beretta, a metranca AR-18, o explosivo plástico Semtex, o lança-granada antitanque RPG, o assalto a banco e o sequestro. Em 27 de agosto de 1979, o IRA mandou pelos ares o iate Shadow V. Entre as vítimas fatais do atentado a bomba estava Louis Mountbatten, 1º Conde Mountbatten da Birmânia, veterano da Marinha inglesa, figura atuante nos processos emancipatórios da Índia e do Paquistão, entusiasta do polo, bon vivant mulherengo e primo da rainha Elizabeth II. Em Belfast, no dia 27 de junho de 2012, um agora sessentão e engravatado Martin McGuinness, membro do Sinn Fein e vice-primeiro-ministro, teve um encontro com uma verdejante e octogenária rainha Elizabeth II. Os dois cumprimentaram-se com um protocolar aperto de mão. O político católico ex-terrorista, ao despedir-se da monarca anglicana ex-opressora, emitiu uma frase em gaélico, "Slan Agus Beannacht". Que, traduzindo para o idioma de Adele, vira "Goodbye and Godspeed". Rapidamente, especialistas no assunto arreganharam as comportas de suas eclusas de ideias prontas, escoando para a Sandra Annenberg e o Celso Freitas uma esperada torrente de: momento histórico e emocionante, marco nas negociações de paz, notícia foi destaque nas redes sociais. Uma bastante aguardada demonstração de forgive & forget, perdoar & esquecer? Pode ser. Do que me lembrei quando vi a cena foi um antigo comercial dos bonecos Playmobil.

terça-feira, 31 de julho de 2012

The impression that I get

Em memória do amigo Cícero Jorge (11/07/1984 - 20/07/2012):



THE MIGHTY MIGHTY BOSSTONES - THE IMPRESSION THAT I GET

Have you ever been close to tragedy

or been close to folks who have?
Have you ever felt the pain so powerful,
so heavy you'd collapse?
No? Well,

I've never had to knock on wood
But I know someone who has
which makes me wonder if I could
It makes me wonder if I
Never had to knock on wood
and I'm glad I haven't yet
because I'm sure it isn't good.
That's the impression that I get.

Have you ever had the odds stacked up so high
you'd need a strength most don't possess?
Or has it ever come down to "do or die"
you gotta rise above the rest.
No? Well,

I've never had to knock on wood
But I know someone who has
which makes me wonder if I could
It makes me wonder if I
never had to knock on wood
and I'm glad I haven't yet
because I'm sure it isn't good.
That's the impression that I get.

I'm not a coward, I've just never been tested.
I'd like to think that if I was I would pass.
Look at the tested, and think there but for the grace go I
Might be a coward, I'm afraid of what I might find out.

Never had to knock on wood
But I know someone who has
which makes me wonder if I could
It makes me wonder if I
never had to knock on wood
and I'm glad I haven't yet
because I'm sure it isn't good.
That's the impression that I get.

Never had, but I'd better knock on wood
'cos I know someone who has
which makes me wonder if I could.
It makes me wonder if I
Never had, but I'd better knock on wood
'cos I'm sure it isn't good
and I'm glad I haven't yet.
That's the impression that I get.

sábado, 30 de junho de 2012

Y2K e Golem

Eu jogando Quake 2, disparando chumbo grosso de uma Hyperblaster em um paramilitar inimigo de capacete de melancia. Em um Gradiente SMZ-96 largado no chão de parquê, rolava um mix CD metade Mad Caddies, metade Dance Hall Crashers. Perto do monitor SVGA, um pacote de plástico rasgado do qual esparramavam-se, como numa cornucópia, salgadinhos tubitos sabor milho (sem glúten, jurava a embalagem). Na cozinha, a mãe - o avental florido, a espessa luva que parecia uma manopla de vilão de quadrinhos - preparando uma fornada de quindins, um cheirinho bom que impregnava os vértices superiores das paredes. Outra pacífica, ensolarada e doméstica manhã. Era um dos primeiros sábados de 2000, o ano em que faríamos contato com o apocalipse informático. Y2K. Bug do milênio.

Por volta de a.C. (antes de Celeron), os sistemas antigos, para economia dos preciosos kbytes de disco e de memória, armazenavam com dois dígitos os campos das datas. 17 de setembro de 1939 virava 17/09/39. Resumo do problema que nos ameaçava no pós-réveillon: talvez as máquinas interpretassem o 00 de 2000 como 1900. Previam-se contas de luz debitando um século no total, confusão nos bancos de dados de aeroportos e de agências meteorológicas, baderna no registro dos velhinhos do INSS. Uma das soluções que emergiram, baseada em força bruta: no código do programa, alterar manualmente as linhas (que nos mais complexos chegavam a milhares) que envolvessem cálculo de data, acrescentando duas casas para o ano.

Claro que as imaginações mais suscetíveis, anabolizando notícias lidas nas "indispensáveis" revistas semanais, trataram logo de emprestar tons de excitante dramaturgia às especulações. Seria a rebelião da parafernália. Servidores de sites famosos (UOL, Yahoo!, Ask Jeeves) planejariam um motim. Consoles Neo Geo eletrocutariam adolescentes. Aqueles brinquedos de shopping, com a garra mecânica de capturar bonequinhos de pelúcia, estrangulariam crianças. Tentáculos de metal trançado, como jibóias cibernéticas, quebrariam os braços de operários em montadoras de automóveis. O Panasonic trituraria minha fita VHS repleta de filmes do John Woo gravados em SLP. Túneis de tomografia pulverizariam os coitados dos pacientes. Softwares de análises clínicas rodados em Windows 98 emitiriam, por pura diversão sádica, diagnósticos errados e letais. Apareceriam insistentes e inexplicáveis mensagens de senha incorreta na hora de sacar dinheiro no caixa eletrônico. Em bases militares, computadores enlouquecidos provocariam um enxame de Tomahawks, Exocets, & Scuds pelo céu. Sinais de trânsito piscariam abilolados. Um ludita, o carunchoso doutor Žižek Pondé, movido por um profundo sentimentalismo analógico, vociferaria pelas ruas caóticas de uma metrópole, entre residências destruídas, caravanas de refugiados e pontos de comércio saqueados: "Reduzimo-nos a números, a uma pantomima binária! Entregamos nossas vidas aos malditos processadores!"

Presenciaríamos terrores medievais como bebês de três cabeças, pragas agrícolas e pecuárias, cometas de mau agouro. Menos, meu povo, menos. Ou: e a montanha pariu um ratinho.

No folclore judaico existe uma figura chamada Golem. De acordo com a lenda contada pelos apedrejadores de Cristo, o Golem foi fabricado com barro e animado pelas artimanhas cabalísticas de um Isaac Abravanel qualquer, lá da vila Canaã. A geringonça antropomórfica auxiliaria o senhor Isaac e família na dura labuta diária, facilitando a execução de algumas tarefas. Ajudar a Rute a pendurar roupa lavada no varal, carregar pesos na reforma da sinagoga, imprimir estatísticas das vendas do lojinha. O ancestral dos robôs era uma entidade sem inteligência, apenas seguia instruções. Só que a invenção saiu do controle, tornou-se hostil aos humanos. Essa história é uma bela e clássica metáfora que mostra como às vezes ficamos infantilmente dependentes/maravilhados/assombrados em relação a certos prodígios tecnológicos. Todos os maiores bens estão cheios de ansiedade. Essa frase não é minha.

quinta-feira, 31 de maio de 2012

Folhas de um caderno do cárcere

A Primeira Guerra Mundial foi a aplicação do que posteriormente o general alemão Erich Ludendorff chamaria de guerra total. Um teatro de implacável encenação no qual figuraram marmanjos tão díspares quanto o comediante americano Bob Burns e o poeta franco-suíço Frédéric-Louis Sauser (Blaise Cendrars; ferido em uma explosão, teve o braço direito amputado).

Para uns, as batalhas eram uma aventura, um esporte varonil. Para outros, uma lástima, um morticínio degradante. A marcha dos pelotões, o ratatá das metralhas, a fuzilaria de rifles Mauser e Lee-Enfield, os estilhaços de granadas, os lugares reduzidos a escombros pelo canhoneio de howitzers, os pulmões destruídos pelo insidioso gás de cloro, tanques Mark em procissão, zepelins e aviões trafegando por um céu impassível, submarinos torpedeando navios brasileiros (e ensejando a entrada de reforços canarinhos no confronto).

Naqueles tempos conturbados, um inquieto inglês de quarenta e tantos anos foi preso por seu engajamento em atividades que advogavam um boicote à participação britânica no conflito. No período atrás das grades, ele escreveu um livro. Mais um para torrar-nos a santa paciência com frases imperdoavelmente pueris sobre paz, liberdade e rouxinóis? Não é esse o caso. Em novembro de 1918, encerrou-se a fúria dos filhos de Marte. Em setembro do mesmo ano, após quatro meses de detenção, o cidadão que referi saiu do cárcere. Era o matemático e filósofo Bertrand Russell, trazendo com ele o rascunho de Introdução À Filosofia Matemática. Na obra, comentava assuntos como classes, definição de número, lógica proposicional, silogismos. Falava de suas influências: Leibniz, Frege, Peano. Defasado em alguns pontos para os padrões de hoje, é um material cuja leitura vale pela curiosidade histórica e pelo estilo do autor.

Reproduzo dois trechos. Em I), ele explica de maneira didática e sucinta seu famoso paradoxo. O II) é uma crítica a certas abordagens do pensamento abstrato.

I) "A classe compreensiva por nós considerada, que deve abranger tudo, deve abranger a si mesma como um de seus membros. Em outras palavras, se há algo chamado 'tudo', então tudo é alguma coisa e é um membro da classe do 'tudo'. Mas normalmente uma classe não é membro de si mesma. A humanidade, por exemplo, não é um homem. Forme-se agora a reunião de todas as classes que não são membros de si mesmas. Essa reunião é uma classe: será ou não um membro de si mesma? Se o for, será uma daquelas classes que não são membros de si mesmas, isto é, não é membro de si mesma. Se não o for, não será uma daquelas classes que não são membros de si mesmas, isto é, ela é um membro de si mesma. Assim, das duas hipóteses - a de que seja e a de que não seja um membro de si mesma - cada uma implica sua contraditória. Isso é uma contradição.

Não há dificuldades em elaborar contradições similares ad lib. A solução de tais contradições pela teoria dos tipos é apresentada por inteiro em Principia Mathematica e também, mais resumidamente, em artigos deste autor no American Journal of Mathematics, bem como na Revue de Metaphisique et de Morale. Para o momento, deve bastar um esboço da solução.

A falácia consiste na formação do que chamamos classes 'impuras', isto é, classes que não são puras quanto ao 'tipo'. Como veremos em capítulo posterior, as classes são ficções lógicas, e um enunciado que pareça referir-se acerca de uma classe só será significante se for capaz de tradução para uma forma na qual não seja feita menção alguma à classe. Isso impõe uma limitação às maneiras em que possam ocorrer significantemente as coisas que são, nominal, mas não realmente, os nomes das classes: uma sentença ou um conjunto de símbolos que em tais pseudonomes ocorrem de maneiras errôneas não são falsos, mas estritamente carentes de significado. A suposição de que uma classe é, ou de que não é, um membro de si mesma é destituída de sentido justamente dessa maneira. E, com mais generalidade, supor-se que uma classe de indivíduos seja um membro, ou que não seja um membro, de outra classe de indivíduos será fazer-se uma suposição sem sentido; e construir-se simbolicamente qualquer classe cujos membros não são todos do mesmo grau na hierarquia lógica é usar-se símbolos de um modo que faz com que não mais simbolizem coisa alguma."

II) "Na falta de um aparato de funções proposicionais, muitos lógicos foram levados à conclusão de que há objetos irreais. É alegado, e.g., por Meinong, que podemos falar sobre 'a montanha de ouro', 'o quadrado redondo', e assim por diante; podemos formar proposições verdadeiras das quais essas coisas são os objetos; portanto elas devem ter alguma espécie de ser lógico, pois de outro modo, as proposições em que ocorrem seriam sem significado. Parece-me que em tais teorias há uma falha do sentimento de realidade que deve ser preservado até mesmo nos estudos mais abstratos. Sustento que a Lógica não deve admitir um unicórnio mais do que o admite a Zoologia; pois a Lógica está tão interessada no mundo real quanto na verdade o está a Zoologia, embora com suas características mais abstratas e reais. Dizer que os unicórnios têm uma existência na heráldica ou na literatura ou na imaginação é a mais lamentável e mesquinha das evasões. O que existe na heráldica não é um animal, feito de carne e osso, movendo-se e respirando por sua própria iniciativa. O que existe é uma figura ou uma descrição com palavras. Similarmente, dizer que Hamlet, por exemplo, existe em seu próprio mundo, a saber, no mundo da imaginação de Shakespeare, tão verdadeiramente quanto (digamos) Napoleão existiu no mundo comum, é dizer algo deliberadamente destinado a confundir, ou, então, confundido em um grau dificilmente acreditável. Só existe um mundo, o mundo 'real': a imaginação de Shakespeare é parte dele e os pensamentos que ele teve ao escrever Hamlet são reais. Também o são os pensamentos que temos ao ler a peça. Mas é da própria essência da ficção o fato de apenas os pensamentos, sentimentos, etc. em Shakespeare serem reais e de não haver, além deles, um Hamlet objetivo. Ao se dar conta das reações provocadas por Napoleão nos escritores e leitores da História, você não terá tocado o homem real; mas, no caso de Hamlet, você terá chegado ao âmago. Se ninguém tivesse pensado em Hamlet, nada restaria dele; Se ninguém tivesse pensado em Napoleão, ele teria, logo, providenciado para que alguém o fizesse. O senso de realidade é vital em Lógica, e, se alguém fizer prestidigitações com ele, simulando que Hamlet tenha qualquer outra espécie de realidade, estará prestando um desserviço ao pensamento. Um robusto senso de realidade é muito necessário à estruturação de uma análise correta de proposições sobre unicórnios, montanhas de ouro, quadrados redondos e outros pseudo-objetos do gênero."

segunda-feira, 30 de abril de 2012

Umek

Umek. Não confundir com a antidade, mistura de anta com entidade, que ensina "nós pega o peixe". Descobri o DJ esloveno Uroš Umek em 2003, através do aplicativo multimídia BS.Player. Em sua primeira execução após instalado, o programa tocava automaticamente a amostra de 30 segundos de uma curiosa faixa eletrônica intitulada Posing As Me. Chamou minha atenção no ato. Procurei no Kazaa por mais material do sujeito. Imaginem versões alucinógenas das trilhas de games futuristas e cyberfetichistas como Super Metroid e MDK.

É interessante esse fenômeno, a popularidade alcançada por hits techno/dance vindos de improváveis lugares dos Balcãs. Por exemplo, acho difícil que alguém tenha escapado incólume de ouvir, em 2010-2011, uma certa Stereo Love: o batidão com tunts e bips, o sample da sanfoninha romena e a voz intrigante da exótica beldade Vika Jigulina (nascida na Moldávia).

"Música de rave" me lembra de um antigo colega de trabalho, do breve período em que fui empregado de uma em-vários-sentidos-minúscula secretaria da prefeitura. O cidadão encarnava o típico marombado com cérebro de platelminto e camiseta Abercrombie & Fitch. Éramos da área de banco de dados. Muito engraçado ver o Johnny Bravo da Parangaba, ele sentado em uma das cadeiras giratórias do escritório e imitando as coreografias que aprendia nas boates, narrando histórias que envolviam abuso de anfetaminas e de peiote, luzes psicodélicas, problemas de surdez momentânea, garotas disponíveis e fosforescentes de glitter, paredões de som do tamanho de um castelo búlgaro. Espécie de almanaque no assunto, ele vivia citando nomes tipo The Chemical Brothers, Marky, Basement Jaxx, Daft Punk, The Prodigy. Uma vez, danou-se a falar até de efeito Doppler.

Possuo 86 arquivos MP3 do Umek. Foi complicado selecionar 4 para este post. Qualquer coisa, dêem uma pesquisada. Recomendo. O cara é inspirado. Conta-se inclusive um caso de teor folclórico sobre ele. Por causa de uma festa realizada em um distrito rural perto de Liubliana, capital da Eslovênia (país com território menor que o de Sergipe, a República do Sergipistão). Apareceram acusações de que o barulho infernal do evento provocou stress nas vaquinhas de fazendas da região, impedindo os traumatizados bifes ambulantes de produzir leite por um tempo, o que ocasionou prejuízos à economia do vilarejo. Mu.

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