quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Matrimônio helvético

Eu conversara com a Silvia pela última vez no final de 2002, na partida dela para a Suíça. Emigrava para estudar Hotelaria numa faculdade de Basileia, capital do cantão de Basel-Stadt e berço do tenista Roger Federer. Lembro os momentos no aeroporto, a tia Ceiça efetuando um bombardeio de conselhos que iam desde agasalho a atenção na hora do troco. Pensei num filme de época, os personagens subindo a bordo do transatlântico S.S. Poseidon, de repente a atrocidade que era o rugido do apito, zarpar, os lenços em despedida, os chapéus safari ou cheesecutter acenando do deque, os vultos no cais retribuindo com tchauzinhos. Concluída a graduação, ela imergiu num voraz redemoinho de atividades e em 2012 retornou à terceiromundista, calorenta e nem por isso menos saudosa Fortaleza. E o recado que nos surpreendeu: estava noiva. E convencera seu futuro proprietário, suserano e mestre a oficializar a união no Brasil. Um matrimônio helvético nos trópicos. Dela que em breve assumiria a identidade de senhora Blickensderfer.

Peguei o Audi e guiei rumo à casa do tio Leo, no Itaperi, residência que se agitava numa animação quase elétrica, faíscas atravessando o ar. Tantas pessoas fascinadas observando a parente cosmopolita, articulada e que trazia mil notícias do país da neve eterna dos Alpes, da clássica Bond girl Ursula Andress e das barras de chocolate Nestlé. O quarto dela permanecera supersticiosamente intocado até pelo espanador, dir-se-ia que grãos de poeira suspenderam suas andanças, que o recinto desenvolvera uma instância cronológica particular. Arqueólogos interessados nos primórdios do século XXI talvez se mobilizassem para analisar a alcova. Com um interesse longe de ser científico é que a tia Ceiça às vezes entreabria a porta e dava uma mirada no lugar, tentando amenizar a saudade, que martelava em seu peito como o bleinblein de um sino de campanário; a filha agora batalhando numa terra distante e de costumes diferentes. No dia em que voltou, ela admirou-se da intrigante estagnação de seu antigo dormitório. As persianas cerradas, o armário de nogueira, o pufe acinzentado, o arsenal de maquiagem, o espelho circular, o mural cheio de fotos, os amontoados pares de sapatos, a cama com o colchão de movimentos submarinos, o relógio gato Felix cuja cauda era um pêndulo, o quadro com gravura art déco celebrando os roaring 20s, o troféu de um concurso de maquetes destacando-se em uma prateleira da estante, a caixinha de música com a bailarina num equilíbrio de flamingo, alguns CDs: Vanessa Carlton, Eros Ramazzotti, Enrique Iglesias, Sophie Ellis-Bextor, Kosheen, Lasgo; descansando na lisura de uma escrivaninha delgada, um livro: Jane Eyre, de Charlotte Brontë, um marcador entre as páginas 196 e 197, o seguinte trecho sublinhado a lápis:

"- Que história mais gosta de ouvir?
- Oh, não tenho muita escolha! Geralmente são sobre o mesmo tema... namoro; e prometem terminar na mesma catástrofe... casamento."


Encontrei-a cercada de inquisidores. Seu corpo magro de redondezas estratégicas, seus cabelos pretíssimos em cascata, sua pele bronze-de-quem-veleja, seu nariz de duquesa, seus intimidadores e dardejantes olhos verdes, sua voz de Rosamund Pike. Na dicção e nos gestos, indícios de uma complicada mistura de latitudes, as arcadas de um sisudo aqueduto europeu e os losangos de um festivo calçadão praiano.

- Primo Silvio, há quanto tempo!

- Prima Silvia, há quanto tempo!

Nada criativo, reconheço. Não é moleza ter que atualizar uma década de assuntos.

- E então, garoto, o que faz da vida?

- Uhm... Trabalho no ramo de computadores.

- Tipo aquele Steve Jobs?

- É por aí. Só que meus resultados são bem mais modestos. E possuo a vocação empreendedora de um texugo empalhado.

- Afff... Eu soube de umas fofocas. Imagino que esse será outro casamento em que as tias irão te incomodar com o papo de "Você é o próximo".

- Vão não. Pararam de me perturbar depois que passei a dizer o mesmo para elas nos funerais.

- (risos) Que horror.

- Espalharam inclusive que eu estava mais encalhado que a Playboy da Fernanda Young.

- Tu não presta. Que raios é essa Fernanda? Ah, esquece. Eu e o Chris estamos adorando esse clima de preparativos, você deveria experimentar.

- Prometo que inovarei. Pedirei a mão da moça via telefone. Numa ligação a cobrar.

- Ok, desisto. Sabe, quando eu era pequena a mãe ouvia direto o LP da trilha internacional de Mulheres De Areia, o do Marcos na capa. A faixa 5, Let It Be Me, tinha uns versos assim:

God bless the day I found you
I want to stay around you
And so I beg you
Let it be me


Foi o que respondi ao Chris logo após o "Sim" na noite em que ele me convidou para jantar no Fischerstube e me anunciou a proposta.

- Caprichou na declaração. Parece algo muito adequado de se falar ao homem que você escolheu para ser seu marido. Mas mudando radicalmente a pauta - ou não -, satisfaça minha curiosidade: e esse lance da cultura das armas, como é?

- Menino, a cada mês de julho acontece uma tal de Feira do Tiro na cidade onde eu moro. É uma farra. De todos os lados vêm rifles de assalto, espingardas Remington, carabinas, idosos com mosquetes e arcabuzes, submetralhadoras, adolescentes de bicicleta e com a bandoleira de fuzis automáticos a tiracolo, pistolas, morteiros, canhões, Gatlings, caixotes de munição. Eu sempre vou num estande em que a gente pode disparar uma Browning .50 instalada num tripé. Dizem que uma rajada certeira divide um ser humano ao meio. Grrr, que nojo.

- Saquei. Aposto que essa máquina é perfeita para derrubar minarete.

E chegou a manhã de domingo do casório. Christian, natural de Zurique, era pesadão feito um cachorro São Bernardo, pálido, loiro ferrugem, com olhos de um azul rio Reno e sotaque arrevesado em que não faltavam "os cearrensas", "t'rrânsito louca", ásperas chicotadas fonéticas de um descendente de Guilherme Tell. A cerimônia seguiu o protocolo, foi sóbria, organizada, bonita, comovente. O noivo plantado com cara de paisagem perto do altar e a ansiedade que o levava a endireitar de três em três minutos o jasmim na lapela, a Silvia atrasada e sob a grinalda, a daminha conduzindo as alianças. Tive que aturar a homilia do padre, esse catalisador de bocejos, essa solene matraca de chavões, esse dedicado funcionário de uma sucursal do Vaticano. Pulemos a igreja e saltemos para o buffet.

Ataquei sem piedade o bife ao molho com arroz à grega, nham nham. Fedelhos tramavam surrupiar os bonequinhos de marzipã do topo do bolo. Tendo enfrentado e vencido uma extensa sequência de cumprimentos, saudações, presentes, agradecimentos e poses para cliques de insaciáveis câmeras digitais, a noiva aproveitou uma rápida trégua e sentou-se em uma cadeira vizinha a mim. Eu aplicava uma dentada de predador num cupcake. Ela segurava sua quinta flute de champanhe e exclamou:

- Cortem-lhes as cabeças, ordena a Rainha de Copas.

Uma leve embriaguez monárquica. Comentei:

- Você está um pouco alta, rainha do copo.

- Q'isso, uns golinhos inocentes. Quem está para lá de Marrakesh é o tio Jango, perdeu a compostura e começou a narrar casos de adultério, o mal educado. Rapaz, se eu cair nessa situação de chifre, vou apelar para a técnica oriental Matsunaga. Apanho uma faca, decepo a ferramenta e o pacote de documentos do gringo infiel, jogo na privada e puxo a descarga, que é pr'ele aprender a não mexer com nordestina.

- É o que, diaba?

- Brincadeira, tolinho. Tu não vive contando esse tipo de comédia naquele teu blog entregue às baratas? Grrr, baratas, que nojo.

- Uma piada, claro. Eu estava bancando o desentendido. Acha que sou idiota ou o quê?

- Ou o qu «hick» Se tu publicar um texto sobre isso aqui juro por Deus que te mat «hick» Ai, soluço.

- Não se preocupe. Como diria o detetive Axel Foley: confie em mim.

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Zuse e Natal

Zuse e Natal Em 18 de dezembro de 1995, ocupados que estávamos com a correria típica do período, poucos foram os que repararam na notícia do falecimento, aos 85 anos, de um senhor germânico de pesados óculos de grau chamado Konrad Zuse, um dos pioneiros da computação. Parece que um sério pecado dele foi ter sido financiado pela tirania nacional-socialista e participado de esforços de guerra do Eixo. Contratado por um instituto de pesquisas aerodinâmicas, ele construiu paquidérmicas engenhocas de calcular que foram usadas para, por exemplo, aperfeiçoar o alcance de bombas voadoras. Com tendência ao isolamento e ao alheamento político, ele teve que aturar casos de assédio ideológico, mas jamais se filiou ao Partido-Estado. Passando por dificuldades econômicas, ele se viu diante das opções: abandonar seus projetos ou ser patrocinado pelo 3º Reich. Muitos anos depois da queda do regime hitlerista, ele classificaria sua escolha de "meu pacto faustiano".

Os seguintes trechos em itálico são daqui.

"O engenheiro berlinense é tido como o criador do primeiro computador do mundo e também da primeira linguagem de programação baseada em algoritmos.

Entre as contribuições mais conhecidas de Konrad Zuse para o mundo da informática estão as máquinas Z1, Z3 e Z4, construídas respectivamente em 1938, 1941 e 1945. A primeira era uma calculadora com tecnologia mecânica que, segundo a Universidade Técnica (TU) de Berlim, pesava cerca de 500 quilos e era capaz de fazer operações aritméticas de adição, subtração, multiplicação e divisão, além de calcular raiz quadrada e converter decimais em binários e vice-versa."

"O desenvolvimento da máquina Z2 em 1939 possibilitou a Konrad Zuse acumular experiência para finalizar, dois anos mais tarde, a construção do Z3. Considerada a primeira calculadora completamente automática e programável em sistema binário do mundo, a invenção tinha todos os componentes encontrados em um computador moderno, exceto memória para armazenar dados ou um programa.

O Z3 foi concebido antes mesmo do computador britânico Colossus, projetado durante a Segunda Guerra Mundial por Alan Turing, e do estadunidense ENIAC, criado em 1946 por John Eckert e John Mauchly. No entanto, o pesquisador Friedrich Naumann lembra em seu livro Do ábaco à internet: a história da informática (tradução livre) que a invenção de Konrad Zuse não foi levada a sério nem pelo governo nem pela indústria alemães na época."


"Formado em 1935 em Engenharia Civil, depois de passar pelos cursos de Arquitetura e Engenharia Mecânica na TU Berlim, Zuse utilizou a sala da casa dos pais durante anos para conceber os primeiros computadores. O engenheiro também já havia se dedicado à pintura e não tinha conhecimentos específicos de eletricidade ou eletrônica. Isso explica por que, segundo Naumann, a máquina Z3 foi vista durante muito tempo como um brinquedo de Zuse. Segundo o autor, o trabalho do engenheiro era visto apenas como um 'hobby'.

No mesmo livro, Naumann relata que nem mesmo Andreas Grohmann, assistente de Zuse, tinha noção do significado de sua contribuição para a construção do Z1. Ele menciona que o assistente teria dito que trabalhava às cegas, 'sem saber ao certo como aquele monstro que ali estava deveria funcionar'. Entretanto, depois de pronta, a máquina 'trabalhava sem grandes problemas e dava soluções exatas para questões complicadas'."


"Em 1945, Konrad Zuse criou o Z4, uma máquina muito mais potente que as anteriores. Enquanto o Z3 e o Z1 levavam entre três e cinco segundos para realizar uma operação de multiplicação, o Z4 era capaz de fazer 11 multiplicações em apenas um segundo."

"Em 1945, Zuse deixou a capital alemã e organizou o transporte do Z4. O Z3 e todas as fotos dele haviam sido destruídos durante um bombardeio aéreo. Durante muitos meses, o Z4 ficou guardado em um galpão na cidade de Hinterstein, próxima à fronteira austríaca."

"A máquina despertou o interesse do matemático Eduard Stiefel. Em setembro de 1945, ele e Zuse assinaram um contrato, formalizando o empréstimo do Z4 ao Instituto de Matemática da Universidade Técnica de Zurique (ETH) por cinco anos.

De acordo com um relatório publicado por aquela universidade em 1981, os suíços pretendiam utilizar o equipamento não só para efetuar cálculos numéricos abrangentes, mas também para enriquecer suas pesquisas e produzir seus próprios computadores em um futuro próximo. Para eles, o empréstimo do Z4 por 30 mil francos suíços era visto como uma boa chance de não ficar de fora na primeira fase da informática.

Além dos Estados Unidos, outras potências vinham apresentando significativos avanços na área, como o Reino Unido e a França. Segundo Naumann, porém, o Z4 foi o único computador da Europa em condições perfeitas de funcionamento até 1951.

No livro Der Computer - Mein Lebenswerk ('O computador - a obra da minha vida'), o próprio Konrad Zuse lamenta a falta de reconhecimento da importância de seus primeiros computadores pela própria Alemanha. Para ele, a indústria eletrônica do país agiu com lentidão, ao contrário das indústrias dos EUA e da Suíça.

De acordo com o engenheiro, a produção de computadores na Alemanha se deu de forma tardia, acarretando consequências lamentáveis à economia, 'pois a indústria de informática é hoje uma das mais importantes do mundo - se não a mais importante delas'.

Depois do empréstimo do Z4 à ETH, o próprio Konrad chegou a produzir e comercializar computadores em uma empresa com sede em Bad Hersfeld, no estado de Hessen. Em meados da década de 1960, porém, a firma foi comprada pela Siemens."


Mais algumas palavras:

- Existe uma distribuição Linux (desenvolvida por uma companhia de Nuremberg) cujo nome é SuSE, acrônimo para "Software und System-Entwicklung". Dizem que é apenas coincidência.

- No dia em que completaria 100 anos, 22 de junho de 2010, o cientista foi homenageado no logotipo do Google.

- Seu grande hobby era a pintura. Sua residência era abarrotada de telas, cavaletes, pincéis, estojos, paletas, bisnagas de tinta, esboços impressionistas. Se um curioso for a Redmond, WA, dirigir-se à sede da Microsoft e entrar no escritório do chefão, encontrará em uma das paredes um retrato de William Henry Gates III com data de (19)95 e assinado por Zuse.

- Excerto de uma palestra do professor Z.

E já que falamos tanto de Alemanha: lembrando que estamos naquela época do ano, encerro com O Tannenbaum, composição de Ernst Anschütz comumente associada às celebrações de dezembro. Feliz Natal e próspera profecia maia.

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Sobre a elipse

Sobre a elipse A elipse é um conjunto de pontos que, supondo-o fora da origem O (0, 0) do plano cartesiano, com os focos paralelos ao eixo das abscissas e de centro C (x0, y0), é definido pela equação:

(x - x0)² + (y - y0)² = 1
a² b²

De um artigo da nossa volúvel Wikipédia:

"A elipse tem a propriedade de que a bissetriz do ângulo formado pelos dois focos e por um ponto qualquer da elipse (como vértice) é perpendicular à tangente à elipse nesse ponto.

Como consequência, qualquer raio luminoso ou onda sonora, que parta de um dos focos, será refletido pela elipse na direção do outro foco.

[...] No Capitólio dos Estados Unidos há uma sala elíptica onde a propriedade refletora teria sido usada pelo presidente John Quincy Adams para escutar conversas que decorriam do outro lado da sala."

Mas não é dessa elipse que quero falar, a da geometria. E sim da figura de estilo. O subentendido. A omissão trabalhada. A supressão criativa. A lacuna que instiga o espectador.

Topamos diariamente com criaturas e assuntos que nos incomodam por seu teor explícito, sua crueza, indiscrição e falta de modos. Discussões exaltadas sobre saneamento básico ou reforma tributária, os desocupados do Occupy e sua fúria sólida que se desmancha no ar, as gravatas de Silas Malafaia, o cabelo pedreiro hipster do Neymar, tráfego congestionado às 07:30 da manhã, documentários sobre a Libéria ou o massacre de Srebrenica, dialetos bárbaros como juridiquês e economês, socialite de nome Valdirene. E chega.

É em oposição a essa overdose de realidade que chamo atenção agora para: a insinuação, a sugestão, a indireta, a abordagem oblíqua, o vago, as entrelinhas, o ambíguo. A habilidade de dizer sem dizer. Foi pensando nisso que reuni aqui exemplos de uso dos vários tipos de discurso elíptico. Vamos a eles.

I) O dramaturgo grego Aristófanes (446-386) era o rei da sátira, o original troll. Debochava dos moralistas e dos libertinos, dos pacifistas e dos belicosos, dos críticos e da plateia. Há uma peça dele, A Assembleia Das Mulheres, que se destaca pelo visionário caráter distópico. Trata-se de uma história sobre as trapalhadas e os impasses advindos da tentativa de implantação de uma quimera igualitária, ideias de jerico que buscavam eliminar diversas formas de desigualdade. Alguns trechos:

"Não esqueçam nossa combinação: não devemos deixar os homens perceberem nada de feminino em nós, principalmente qualquer parte de nosso corpo! Estaríamos fritas se, no meio de tanto homem, alguma de nós cruzasse graciosamente as pernas, mostrando a... diferença!"

"- As mulheres serão comuns a todos os homens; cada um poderá ir com qualquer uma e ter filhos com quem quiser.
- E qual o meio de evitar que todos os homens queiram a mais bonita e tentem papá-la?
- As feias e mal acabadas ficarão ao lado das mais bonitas e quem quiser as bonitonas terá que satisfazer primeiro as feiosas.
- (com ar desconsolado) E nós, os velhotes, como nos arranjaremos? Se tivermos de 'traçar' primeiro as feias o nosso... entusiasmo murchará e como é que vamos dar conta das bonitonas?"

"De acordo com o decreto, os primeiros a provar os brotinhos serão os velhotes e feiosos; enquanto nós executamos o trabalho com os brotos vocês ficarão de mão no... queixo, esperando pacientemente".

"Um Rapaz - (suspirando aliviado, dirigindo-se à moça) Muito obrigado! Você me prestou um valioso serviço! Você terá todo o meu reconhecimento, que não é pequeno!"


II) The Dean Martin Show - título depois mudado para The Dean Martin Celebrity Roast - era um programa exibido pela rede NBC. Gravado em um salão de buffet em Las Vegas, cidade proibida, resultava numa legítima arena da comédia de insulto. Na edição de 18 de outubro de 1973, a vítim, er, homenageada foi a grande Bette Davis, que tomou alfinetadas certeiras de amigos da onça como Vincent Price e Henry Fonda. Algumas das pérolas:

"After several meetings he [Jack Warner] sent Bette for her first test. The result was positive and they named the kid Jack Junior."

"You know, Bette has always suffered in every picture she has ever made. When I appeared with her in 'Elizabeth And Essex' she gave up her beauty. In 'Dark Victory' she gave up her eyesight. And in 'The Virgin Queen'..."

"But there's still a very bright future for Miss Davis. Because with the advent of television a whole new field of unemployment is opening up for her."

"Here's a telegram I forgot to read before. It's from the National Association of Tobacco Manufacturers: 'Dear Miss Davis, we want to thank you for promoting the use of cigarettes in your films. No other actress swings her butt the way you do.'"
[trocadilho intraduzível entre butt = "bituca; cigarro" e butt = "bunda"]

"A star is a lady who gets some million dollars for doing on the screen - as you well know, Dean - what certain other ladies get only 20 dollars."

O curioso é que no final do evento o saco de panc, ops, convidado ia ao púlpito e devolvia as farpas. Na inesquecível e imponente voz com sotaque de Massachusetts, ela declarou o seguinte de um dos participantes da mesa, o humorista negro Nipsey Russell:

"I want to thank Nipsey Russell for being here. Nipsey is one of our great civil rights leaders. As a matter of fact, Stepin Fetchit once called Nipsey an 'Uncle Tom'."

III) Este vídeo. E me refiro estritamente às imagens. Experimentem assistir com o som desligado. É praticamente um herdeiro da escola Tex Avery de innuendo sacana desenhado.


IV) Um colega meu da época da faculdade, um dos sujeitos mais inteligentes e engraçados que conheço, estava numa fase barra pesada do mestrado e resolveu desabafar, meio em tom de piada, com o orientador:

- Não dá mais, Lino, é muita pressão. Vou largar tudo e montar uma barraquinha de comida típica.

- Que situação difícil, rapaz. Isso vai ser chato para sua família. Já tem aquela sua irmã que é atriz de teatro, né?


* * *

E concluo deixando a modesta proposta: da próxima vez que escreverem algo, deem uma chance à elipse.

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

domingo, 30 de setembro de 2012

Foguete fajuto

No Yuri, maior que a cintura de barril era a paixão por astronomia. Seu pai, um bancário terceirizado e mecânico diletante, batizara-o em homenagem ao célebre cosmonauta soviético. Ainda criança, construiu lunetas de cano PVC e revirou enciclopédias à cata de saber o que era zênite, solstício, periélio, equinócio. Ele morava na casa em frente à minha. Trabalhava em uma loja de eletrônicos no Centro, na rua Pedro Pereira. Os vizinhos nutriam por ele certa desconfiança. O rude taxista e a supersticiosa costureira provavelmente associavam "esses sujeitos que gostam de ciência" a vilões que elaboravam receitas de poções malignas e vivisseccionavam rãs na tábua de picotar legumes. Ele tinha uma namorada virtual de longa data (flertavam pelo ICQ, nunca se encontraram pessoalmente). Cheguei a perguntar a ele:

- De onde ela é? Áustria? Uruguai? Canadá? Tailândia?

Resposta:

- É ali da Maraponga.

Ele era um ingênuo e pacífico rechonchudo que vivia com a mente nas nuvens e muito além delas, nos extremos da Via Láctea, nos confins do universo, perto dos quasares e dos raios gama. Era fissurado nos registros tirados lá do alto por sondas; espirais e garranchos que representavam desmatamento na Amazônia, poluição no golfo do México, detritos da erupção de um vulcão javanês, furacões no oceano Índico, geleiras no Ártico. Ostentava no desktop do computador - um Athlon 64 2800+ - uma foto dele ao lado do famoso astrônomo Ronaldo Rogério de Freitas. Elegera para ringtone monofônico do celular o tema de Perdidos No Espaço - 3ª temporada. Em seu pulso esquerdo, destacava-se um relógio cheio de funções que parecia a cabine de um Boeing 747. Possuía um interessante currículo de turismo: Base da Barreira do Inferno, sede do INPE, observatório Gemini (Chile). Criava um cão fox terrier chamado Rigel.

Depois de vários testes de propulsão com garrafas PET, ele comprou pelo eBay, ao preço de 43,62 dólares, o kit de um foguete em miniatura:

- modelo E2X
- branco com detalhes em azul e vermelho
- 4 aletas
- de plástico e resina epóxi
- 110 cm de comprimento
- seção transversal: círculo com 100 mm de diâmetro
- 311,8 g
- altitude máxima: 46 m

Em um domingo qualquer, acordei decidido a gastar a manhã inteira assistindo ao Cartoon Network. Tocaram a campainha do portão e resmunguei, Ah, não. Fui atender, arrotando café e limpando migalhas de cuscuz da boca. Sem o menor prólogo, o lipidioso do Yuri agrediu-me com sua euforia:

- Vem ver, cara, já comecei a montar!

Pedi ao torradinho São Giordano Bruno que me desse paciência.

O Nº 567 era um domicílio acanhado. Uma sala, um corredor, um quarto, cozinha, banheiro, quintalzinho e fim. A desordem imperava. Chaves de fenda, alicate, multímetro, maçarico, tesoura, pinça, parafusos, resistores, disjuntores, capacitores, um prato inutilizado de antena parabólica, um cipoal de fios, carcaças de rádios e de ventiladores, revistas. Uma sucata, um lar. Fomos ao local em que ocorria o serviço. Nas paredes, que clamavam por uma pintura, resquícios de trilhas de cupins e pôsteres como se fossem band-aids numa pele maltratada. Passei os olhos pelas lombadas na estante metálica do recinto. Cosmos, O Guia Do Mochileiro Das Galáxias, Da Terra À Lua, Perry Rhodan, biografias: Omar Khayyam, Nicolau Copérnico, Wernher von Braun, Edwin Hubble, Sally Ride. Em seguida, mexi numa pilha de DVDs. Planeta Proibido, Futurama, Patrulha Estelar, Aelita, Apollo 13, Contato, Star Trek, Buck Rogers, Cassiopeia.

- E então, como está o processo? - indaguei, autoritário.

- Ih, acho que daqui a três minutos o micro-ondas apronta a pizza.

- Palhação.

Após empanturrar-se de catupiry, ele pôs mãos à obra.

Concluída a tarefa, o resultado ficou realmente bonito e vistoso. Um artefato para, na medida de suas limitações, desbravar os céus da nação. Mereceu um nome sugestivo: Caramuru. Um pequeno passo para o homem, etc etc.

A primeira complicação surgiu quando o capitão Y escolheu como área do experimento um campo de várzea na avenida Coronel Carvalho. O terreno era extenso, mas argumentei que era estúpido fazer isso numa região povoada. Teimoso que nem um mulá empacado, ele não quis me ouvir. A expectativa tornara-o irresponsável, temerário, exibicionista.

E assim foi. Encaixamos o brinquedo no suporte de lançamento. Afastamo-nos. Um clique no controle para acionar o cartucho de ignição, uma presilha no pavio, o qual queimou pela transmissão de uma corrente elétrica, detonou a carga de nitrato de potássio e tchuns, o danado rumou acima. E não é que funcionou? Sinceramente maravilhado, consegui apenas exclamar, em tom de paródia:

- Eppur si muove!

O entusiasmo duraria pouco. Em erros grosseiros de afobação, ele
exagerou no ângulo de inclinação do rojão e embrulhou inadequadamente o paraquedas, que falhou devido a um rompimento de cordas. O projétil perdeu altura até atingir e atravessar, com um baita estrondo, o telhado de um casebre. Corremos no rastro da fumaça. Arranjaríamos uma bela encrenca. Lembrei-me do episódio 117 do Pica-Pau, Foguete Fajuto (Rocket Racket).

E agora perdoem a narração atropelada. Foi nesse devoluto casebre, supostamente no aguardo de inquilinos e que atrevidamente arrombamos, que a polícia realizaria posteriormente uma apreensão, confiscando béqueres, pipetas, cadinhos, retorta, funis, tubos de ensaio, lamparina, 3 revólveres calibre 38 e um caderninho sebento repleto de dados comprometedores. Nosso incidente provocou a absurda descoberta de que operava no lugar, em esquema de improviso, um laboratório de combustíveis adulterados. Corta essa, reclama o incréu leitor. Eu próprio cogitei a existência de um Alquimista Superior, um velhinho eterno que se divertia arremessando ingredientes num alambique para produzir essas coincidências estapafúrdias.

Meu colega Flash Gordo teve o retrato estampado nos jornais. Preferi permanecer anônimo e fora da história. "Quadrilha desmascarada", anunciava uma manchete. E o caso piorou. Intimaram dois vereadores para prestar esclarecimentos. Telefones deles rabiscados no infame caderninho. O 1º, um membro do PMM, Partido dos Monarquistas Monetários. A 2ª, uma filiada do PGV, Partido dos Guevaristas Vigaristas. Foi época de discursos inflamáveis (ha) na Câmara Municipal. "Aleivosias contra minha reputação", "Vossa Senhoria é um larápio". A mulher acusada revoltou-se ao ganhar o apelido de Maria Gasolina.

Na noite em que aconteceu o desastre, eu dormia e estava mergulhado em um sonho estilo paraíso latino. De chapéu panamá, na beira de uma piscina, bebendo uma piña colada, acendendo um Cohiba e abraçado pela Sofia Vergara e pela Shakira. Em um tablado próximo, um conjunto musical animava os pés de valsa com a estranha porque dançante melancolia de Mi Desengaño. O cantor, dono de um frondoso bigode tropical, esmerava-se neste trecho:

Es cierto se debe admitir
El mundo esta lleno de maldad


De repente, incas venusianos invadiram o cenário e dispararam seu armamento alienígena nos meus convidados. Os tiros soaram realistas demais. Espera aí. Eram reais. Despertei com uma sacudida violenta sob o lençol na cama. Uma fuzilaria desgraçada tendo como alvo o cafofo do nerd pança. A gangue dos hidrocarbonetos, os bandidos da octanagem. Um ataque drive-by. Esses ratos sempre se vingam. Se ele cochilava no sofá da sala, era adeus. Despachado para o limbo sideral. Enfim poeira cósmica. O Jeep Cherokee Sport preto de placa fria dos meliantes cantou pneu em fuga desembestada e sumiu nas trevas. Peneiraram de balas a fachada. Uma multidão de curiosos pisava as cápsulas deflagradas de Uzi, de pistola Ruger e SIG Sauer, de Tec-9. No quintal, o Rigel latia com ferocidade inaudita. Calma, gente, vou ligar para o celular dele, arrisquei. Do outro lado da linha, veio um barulho de show de rock progressivo e um Alô?. Jamais pensei que me sentiria aliviado ao escutar aquela voz irritante.

Parentes vieram recolher pertences dele. Nunca mais o vi. Dizem que se escafedeu às pressas para a Guiana Francesa; num helicóptero tipo AS350, o "esquilo"; teve que aturar na viagem o piloto amapaense que contava piadas sobre voo com excesso de peso.



* para mais informações sobre lançamento de foguetes em miniatura, vale a pena uma visita:
- Apogee Rockets
- Estes Rockets

sábado, 1 de setembro de 2012

Slan Agus Beannacht

Martin McGuinness era uma espécie de leprechaun rebelado. Um dos principais corações e mentes por trás do IRA, grupo que empreendia luta armada pela independência da Irlanda do Norte. Exército Republicano Irlandês: pensem nas jaquetas camufladas, nos rostos ocultos por passa-montanhas, na bandeira tricolor com a gravura do punho cerrado. Mais uma entidade saída do caldeirão de legítimos anseios por autonomia que degringolaram em excrescências como a FLN argelina e a OLP de Arafat. Pois foi lá na terra do Thin Lizzy que o jovem Martin e seu bando, em meio a pints de cerveja Murphy's, decidiram combater o domínio britânico, adotando como instrumentos a panfletagem, a pistola Beretta, a metranca AR-18, o explosivo plástico Semtex, o lança-granada antitanque RPG, o assalto a banco e o sequestro. Em 27 de agosto de 1979, o IRA mandou pelos ares o iate Shadow V. Entre as vítimas fatais do atentado a bomba estava Louis Mountbatten, 1º Conde Mountbatten da Birmânia, veterano da Marinha inglesa, figura atuante nos processos emancipatórios da Índia e do Paquistão, entusiasta do polo, bon vivant mulherengo e primo da rainha Elizabeth II. Em Belfast, no dia 27 de junho de 2012, um agora sessentão e engravatado Martin McGuinness, membro do Sinn Fein e vice-primeiro-ministro, teve um encontro com uma verdejante e octogenária rainha Elizabeth II. Os dois cumprimentaram-se com um protocolar aperto de mão. O político católico ex-terrorista, ao despedir-se da monarca anglicana ex-opressora, emitiu uma frase em gaélico, "Slan Agus Beannacht". Que, traduzindo para o idioma de Adele, vira "Goodbye and Godspeed". Rapidamente, especialistas no assunto arreganharam as comportas de suas eclusas de ideias prontas, escoando para a Sandra Annenberg e o Celso Freitas uma esperada torrente de: momento histórico e emocionante, marco nas negociações de paz, notícia foi destaque nas redes sociais. Uma bastante aguardada demonstração de forgive & forget, perdoar & esquecer? Pode ser. Do que me lembrei quando vi a cena foi um antigo comercial dos bonecos Playmobil.

terça-feira, 31 de julho de 2012

The impression that I get

Em memória do amigo Cícero Jorge (11/07/1984 - 20/07/2012):



THE MIGHTY MIGHTY BOSSTONES - THE IMPRESSION THAT I GET

Have you ever been close to tragedy

or been close to folks who have?
Have you ever felt the pain so powerful,
so heavy you'd collapse?
No? Well,

I've never had to knock on wood
But I know someone who has
which makes me wonder if I could
It makes me wonder if I
Never had to knock on wood
and I'm glad I haven't yet
because I'm sure it isn't good.
That's the impression that I get.

Have you ever had the odds stacked up so high
you'd need a strength most don't possess?
Or has it ever come down to "do or die"
you gotta rise above the rest.
No? Well,

I've never had to knock on wood
But I know someone who has
which makes me wonder if I could
It makes me wonder if I
never had to knock on wood
and I'm glad I haven't yet
because I'm sure it isn't good.
That's the impression that I get.

I'm not a coward, I've just never been tested.
I'd like to think that if I was I would pass.
Look at the tested, and think there but for the grace go I
Might be a coward, I'm afraid of what I might find out.

Never had to knock on wood
But I know someone who has
which makes me wonder if I could
It makes me wonder if I
never had to knock on wood
and I'm glad I haven't yet
because I'm sure it isn't good.
That's the impression that I get.

Never had, but I'd better knock on wood
'cos I know someone who has
which makes me wonder if I could.
It makes me wonder if I
Never had, but I'd better knock on wood
'cos I'm sure it isn't good
and I'm glad I haven't yet.
That's the impression that I get.