sexta-feira, 30 de abril de 2010

As aventuras de Doris Day

D1

D2

D3

D4

D5

D6

D7

D8

D9

D10

D11

D12

D13

D14

heroin460

D15

D16

D17

D18

D19

* * *

D20

* * *

D21

D22

D23

D24

D25

D26

D27

D28

D29

D30

D31

* * *

D32

* * *

Este post é singela e respeitosamente dedicado à atriz e cantora Doris Mary Anne Kappelhoff, mais conhecida como Doris Day. Ela completou 88 anos - há controvérsias: 86, dizem alguns - no dia 3 de abril de 2010. Totalmente afastada do show business, ocupa-se atualmente com uma fundação que cuida de animais. Siga em frente, garota. Que sera, sera. Whatever will be, will be.

domingo, 28 de março de 2010

Vinte anos esta noite

Ali circa início de 1983 - período do abajur cor de carne, de acordo com uma profecia asteca e uma centúria de Nostradamus - aconteceu-me um negócio extravagante. Nasci. Empurrado para aquele mundão de novidades, eu observava o perímetro. E rabiscava anotações, em segurança numa fralda e pendurado em uma das sérias e pudicas tetas de mamãe. Era um cenário pitoresco. Grandes répteis, mainframes e monitores de fósforo verde andavam sobre a terra. Desconhecidos apertavam-me as bochechas. Celebridades com um gosto bastante duvidoso para penteados e maquiagem. Os da indústria fonográfica insistindo nos backing vocals em ôôô, nos sintetizadores e no canto falsete. Clipes abusando do efeito gelo seco, de quadriculados preto-e-branco e de precárias aplicações de chroma key. Pale Shelter e Overkill, musiquinhas da moda. O jurássico rádio-relógio no topo da obesa geladeira. A moeda era cascalho. Brinks, era o cruzeiro. O presidente Figueiredo era peça rara. Em abril, no pasquim que os caros amigos adoram odiar, foi publicada a inesquecível matéria do boimate. Em maio, Playboy com Luiza Brunet na capa. Em junho, entrou em cartaz um bom filme, WarGames, em que o Matthew Broderick se encrencava com os sisudos protagonistas da Guerra Fria, grávidos de ogivas nucleares; e a marcante sentença no final:


Falar nisso, no Império do Kremlin, reino das robustas mercearias e da vitoriosa economia planificada, a população satisfeita com a realidade do socialismo e dedilhando balalaicas, dançando trepak, brindando com vodka no centro de Moscou e buzinando sua frota de Lada 1500, enquanto caças MiG-31 aprontavam-se para formar no céu o contorno da foice e do martelo. Правда. Gorbachev com a nódoa na careca. Numa tarde de agosto, deitado esplêndido no berço, estava eu, um prodígio de bebê, ruminando uma tese que viabilizaria a cobiçada fusão atômica; quando fui interrompido pelo triângulo de um vendedor de chegadinha; jamais recuperei a linha de raciocínio. Em setembro, o Black Sabbath lançou, talvez em homenagem a mim, o álbum Born Again. Homenagem suspeita, porque o trabalho era fraquinho que nem sopa do Lar Torres de Melo. Ronald Reagan e suas piadas, reagags, confundindo Jesus com Genésio, tupi com tamoio e Brasil com Bolívia. 2 Alemanhas. Da da da. 99 Luftballons. VHS e Betamax. Paletós de ombros estapafúrdios e justíssimas calças imitando pele de onça ou de zebra eram o total eclipse da sensatez. Sigue Sigue Sputnik, Eurythmics, Devo, The B-52's. Pancadaria demais em show de ska britânico. Os gladiadores do metal farofa sacudiam suas cabeleiras parafinadas, solavam epileticamente em guitarras flying V e emitiam os habituais gritos de rachar taça. Poucos ainda lamentando a Copa de 82. A situação dos fugitivos de Cuba, la isla bonita dos filhos da revolução, inspirando um remake de Scarface com Al Pacino e Michelle Pfeiffer. Cuando salí de la Habana, ¡Valgame Dios! Molecada verminando na geração 8-bits. Galaga, Pitfall, Enduro, Alex Kidd, Castlevania, Bomberman, Duck Hunt. A galera do pós-punk e suas depressões e darkzices em ré bemol devidamente remuneradas em dólares e premiadas com Disco de Platina. A rua em que morávamos, austera e banal, próxima às paralelas de uma estação de trem e à irrequieta avenida em que pipocavam infrações de trânsito e letreiros de neon. Uma solitária amendoeira de ampla sombra era a sentinela da esquina, convidava aves canoras, desafiava os postes da COELCE e amparava casais de namorados interessados em bolinagem. Nosso vizinho da esquerda era o Seu Hermínio, que vivia com uma parentada, caminhoneiro veterano que me deixava tirar onda, new wave, na boléia da enorme carreta. Lassie, a cocker spaniel metida a valentona que nos acompanhou por longas 16 voltas ao redor do sol. A tia Isaura [RIP] enviava dezenas de postais de Belo Horizonte. Meu (quanta petulância!) quintal, quartel-general de travessuras, tinha uma importância maior que o canal do Panamá, Irã-Contras, Chernobyl, as Diretas Já, a proliferação da AIDS, o sindicato Solidarność e a descolonização africana. Buliçoso, adquiri mania de desenhar com crayon e lápis no caderno pauta dupla, na mesa, na parede. Sujei e sujei o chão com massinha de modelar. Ploc Monsters, dindim de coco, bala Soft, chocolate Lollo. Numa briga, o pirralho acertou o adversário com um bilboquê. Achava maricas as figurinhas Amar É... ("... não tá pra peixe", dizia a piada; nem vi graça; abre a porta que ela passa). A campanha 1984 da Apple. Disquetões de 5¼''. Linguagens de programação em evidência midiática eram COBOL e BASIC. Microtec, Unitron, Prológica. Leite fervente transbordando na cozinha. A convecção vulcânica de panelas contendo aipo, beterraba, aspargo, brócolis, quiabo, e o forno burilando um fricassê de vitela. Da fila de LPs do pai, àquela altura mais magro e menos calvo, Glenn Miller, Ivanildo Sax de Ouro, Ray Conniff, Xavier Cugat. A Olivetti Lettera cinza logo virou um brinquedo. Na estante, também do jovem patriarca, enciclopédia Barsa, espiões de Ken Follett, calhamaços relacionados a gramática, a religião e a Direito. Advogar, o ofício do homem; ralava em dois empregos; ele que me alfabetizou, antes da escola particular; meu herói nacional. Nesse papo de leitura, eu me contentava com gibis do Pateta. Malandros adultos - 14 ou 15 de idade - às vezes apareciam com uns tais catecismos de Carlos Zéfiro, camuflando-os dentro de títulos da coleção Vaga-Lume. Alguns até se arriscavam em visitas ao Cine Jangada. Nas festas da família, desfile de camisas US Top e de vestidos balonê, razoáveis bebedeiras, tiazonas mexeriqueiras cacarejando críticas à atuação da Malu Mader em recente capítulo da novela Ti Ti Ti, machos-de-tacape preocupados com inflação e queda de poder aquisitivo ou reclamando do preço da gasolina e dos gastos com o Monza na oficina, partidas de damas gamão ludo Genius PulaPirata pega-vareta dominó, petiscos da culinária hardcore do distante e folclórico sertão, a importuna piscadela na pose para foto, primos de tênis Conga e primas de gigolete pondo para rolar no som uma fita com gravações de: Lado A) Cyndi Lauper, a garota do Time After Time e Lado B) Ultraje A Rigor, os matusquelas que bagunçavam a quermesse. Numa dessas, girei vinil da Xuxa ao contrário, para ouvir as mensagens satânicas. Passeávamos em parques. Íamos a la playa, asa delta era diversão de esportistas temerários, Ícaros do litoral, e aparato de banhistas ousadas, Afrodites de bronzeador. Os momentos guardados em monóculos. Vassourito, o apelido óbvio que me puseram. Pior foi com a menina que rebatizaram de Adelaide Anã Paraguaia. Criança não perdoa. As memórias absorvidas da corpulenta e desengonçada televisão da sala, impossível citar todas, entre contemporâneos e reprises. Kate Mahoney, Xerife Lobo, Dallas, Super Máquina, Chacrinha, Pole Position, Lagoa Azul, Thundercats, Juba & Lula, Miami Vice, Alf, Zé Colméia, Jetsons, Punky Brewster, Cavalo de Fogo, O Elo Perdido, Krull, os japoneses, A Teia De Charlotte, Caverna Do Dragão, Pantera Cor-de-rosa e seu eficaz tema composto por Henry Mancini, o piano tristonho que encerrava os episódios do Incrível Hulk, loja A Esmeralda - o gerente endoidou -, vamos à Casa Pio, Cabaré Do Barata, véi Barbosa, MacGyver, Kissyfur, Pedro de Lara, Elke Maravilha, sereia Madison, Benji, He-Man, Tron, Indiana Jones, Flashdance, anime do Pequeno Príncipe, Roletrando (po**a, Silvio), Sessão Aventura, GP de Mônaco, juiz Margarida, Corey Feldman, Molly Ringwald, Bud Spencer & Terence Hill. Depois, foi época de se assustar com formigas gigantes, A Mosca, A Fortaleza, A Coisa, Sexta-Feira 13, O Exorcista, piranhas voadoras (?) e dobermans. A safra de saudosas comédias de sacanagem, Porky's, Almôndegas, Férias Do Barulho, A Primeira Transa De Jonathan, O Último Americano Virgem. Boicote vermelho nas Olimpíadas de 84. Cometa Halley. Menudo. Kátia Cega. Sarajane. Candidato a vereador discursando em cima de lata de querosene. Fiscais do Sarney, VSF, maranhenses me mordam, que troço patético do cacete. O kaboom do ônibus espacial Challenger. O aguilhão do merthiolate no joelho arranhado. Lancheira dos Comandos Em Ação. Papel carbono. Kim Wilde e Laura Branigan, as beldades que me arrastaram para o inferno-paraíso das paixonites precoces e estupidamente ingênuas. Acidente com o Césio-137. Constituição de 88. O escritor esquisitão presenteado com uma fatwa. Jornais sensacionalistas deram destaque a um irrelevante confronto estilo Fla-Flu provocado por meia dúzia de baderneiros amarelos na praça Tiananmen em 1989. Caiu a reputação do atleta Ben Johnson. Caiu o Muro de Berlim.

Pausa para tomar uma Mirinda. Que esse esquema narrativo, extenso painel com recortes de um assunto separados por vírgula ou por ponto, requer um tanto de preparo físico.

E agora, um salto para 2003, no mesmo dia de minha estréia por essas bandas. Eu cursava faculdade. E o salário, ó. A White House chefiada pelo George Wacky Bush. Começava a invasão do Iraque. Motivo oficial, as comentadíssimas armas de destruição em massa. Ambígua efeméride no meu aniversário. Continua curioso ver os sites e noticiários que mencionam a data. Ou folhear almanaques e livros de História e, shazam, ela ressurge, em fonte Garamond ou Arial tamanho 12. No restinho daquela quinta-feira, em outra residência, em outro bairro, em outro século, em outro milênio, quase que em outro convulsionado planeta, eu jantava empanado de frango com arroz parboilizado e refresco de tamarindo. Ao assistir, em outra TV, à cena em que soava um alarme de ataque aéreo na região para lá de Bagdá, foi como se ele anunciasse: Vinte anos esta noite.

domingo, 28 de fevereiro de 2010

Invasores, Bits, Carros, Surf, Dinheiro

domingo, 31 de janeiro de 2010

Imaginação: modo de usar

Lembrei o trecho de uma aventura do Sherlock Holmes em que o arguto detetive falava de um certo uso científico da imaginação.

Pergunto: Que ilusões temos vontade de dinamitar? Que beleza imaginativa estamos dispostos a destruir?

Que bando de cutias esses naturalistas e iconoclastas vulgares, com seu ceticismo de feira de Acari. Que espécie de bicho, ambicionando afetar superioridade, murmura que Ingrid Bergman e Ginger Rogers não eram tudo aquilo? Que elas também tinham que cumprir as obrigações malcheirosas no banheiro, que a frescura e a pose delas - o que os alienados pela mídia chamam de glamour - reduziram-se a meros e lúgubres despojos em cemitérios, zZzZz, que sono. É a mesma laia de energúmeno que se acha o espertalhão por pensar nos anônimos pedreiros de Tebas, a das sete portas. Não vejo graça nisso. Cabeça-de-porongo que leu meia dúzia de resumões do tal Charles Bukowski ou assistiu ao DVD dos Detentos do Rap e já quer sair por aí distribuindo sopapos na cara das convenções, mano, porque ele foi além da cúpula do trovão da rotinazinha do flat e agora saca qual que é a do sistema. Tá ligado que a revolução não será televisionada. O povo do gueto mandou avisar. Tenso. Vocação para Didi Mocó arrancando pedaços de parede e debochando dos cenários de isopor do Projac. É a miragem do realismo de berçário, o engodo do temperamento crítico exacerbado. Mas ganha pontos comigo (grandes bosta) quem estourar o balãozinho vermelho de hélio dos lindos devaneios das utopias igualitárias, incomodando Mafaldinhas e atrapalhando os que pelo menos têm ideais e investem no sonho, né, people. E é esquisito, pois fica a impressão de um esquema trenzinho da alegria relativista, cujo ápice são os breguelhentos Cada um acredita no que quiser e Ninguém é dono da verdade.

Entediados do átomo e sequiosos da ficção de todo o mundo, uni-vos. Continua em franca e atiradora decadência nossa estima por lorotas que divertem, por futilidades lúdicas que podem até ser civilizatórias. Viajar alto observando aquelas formas microscópicas de flocos de neve. Ouvindo o comecinho de Under The Bridge, dos Chili Peppers. Visitando a coleção de carangos do Jay Leno. O hobby de estudar a mecânica das intrigas de um salão vitoriano durante os passos da valsa é mais crucial à condição humana que desembestar engajadamente pela estrada afora para entupir com rolhas king size - eu disse rolHas - o fiofó de vaquinhas e assim evitar que as emissões de bufa das mimosas agravem o aquecimento global.

E vou vivendo, tem gente que é útil e está morrendo. E então, vamos de screwball com o Cary Grant ou de documentário sobre cambalachos da indústria petrolífera? Ou, como diria uma buarquiana, depende do momento?

Arca de Noé, design inteligente, boitatá, perna cabeluda, Área 51, Valhala, Shangri-La, Atlântida, Avalon, gene egoísta, exu Caveira, estigmatas, flogisto, horóscopo, luta de classes, chupa-cabra, Amway, Ganesha, fantasma do Lombardi, teoria unificadora, talismã, pote de ouro no fim do arco-íris, conspiração sionista, malthusianismo, confucionismo, niilismo, estrabismo, Gran Turismo, cartilagem de tubarão, fractais, Uri Geller, Harry Potter, Avatar, baú do pirata Alma Negra, mão invisível do mercado. Devidamente embrulhados para presente. Escolham seu(s) favorito(s).

Símbolos. Muletas. Escapismo. Uma noção de ordem ou uma quebra de norma. Fantasia metódica. Delírio calculado. Nefelibatismo ensaiado. Mentirinhas brancas que apaziguam e entretêm. Credo quia absurdum.

Castelos no ar. Sempre haverá arquitetos para planejá-los. Ei, você: alguns dos que enfeitam sua existência, trazem coisas de magia, sei lá, à sua vida, talvez sejam do tipo que eu adoraria demolir. **CRAS!**. Elementar, meu caro.